Um vulcão chamado Sena

O convívio com qualquer criador tece-se de sinuosos acasos, circunstância que por vezes ganha corpo, quando do diálogo imediato com a obra se transita ao contacto pessoal com quem a segrega. O nome de Jorge de Sena pontuar-me-ia as leituras da adolescência, não como do grande escritor que ele era, espraiado pela poesia, pelo teatro, pelo ensaio e pela novelística, mas quase exclusivamente como do tradutor, aliás de inexcedível qualidade, de muitos dos marcos supremos da literatura universal.

Na editora Livros do Brasil por exemplo, em cujo catálogo se achavam os maiores de várias latitudes, e facilmente acessíveis como não acontece nos dias de hoje, Sena comparecia com frequência, quer pela versão para português de múltiplos títulos, quer pelos inteligentes textos com que os apresentava. Era exaltante de facto esse tempo neste aspecto, aduza-se sem o saudosismo geracional a que não sou atreito, em que, ao abordarmos o empregado de uma livraria, amiúde tão jovem como os que proliferam agora, mas desamparado de computador, e ao indagarmos da existência nas estantes de um fruto do génio de Platão, de Shakespeare, ou de Balzac, jamais recebíamos por resposta esta outra pergunta, "E esse senhor a que se refere publicou recentemente alguma coisa?".

Só bastante mais tarde descobriria eu a imensidão do poeta de Metamorfoses, em larga medida como consequência do talento de um editor extraordinário, José da Cruz Santos, e da sua chancela, a Inova, que afinal confeririam a Jorge de Sena a visibilidade que como raríssimos merecia. A residência no estrangeiro, abraçado a um exílio com tanto de voluntário como de empenhado, contribuía sem dúvida para a escassa validação do escritor no seu berço pátrio, sempre disposto a esquecer os filhos que transpõem as fronteiras, votando-os ao silêncio em que se detecta o amuo da imaturidade, ou o castigo da independência. Respeitado pelos seus pares como uma voz importantíssima, se bem que no entusiasmo algo tépido, autorizado pela inveja que não se contém, Sena lutaria contra semelhante ostracismo, usando a tenacidade risonha com que retrucava, ao acusarem-no de falar demasiadamente de si mesmo, "Se não for eu a fazê-lo, quem o fará por mim?".

Tendo-se interessado por um original, Um Verão assim, que se converteria na primeira experiência de ficção do subscritor destas linhas, Eugénio de Andrade insistiria em que Jorge de Sena, já por essa altura professor da Universidade de Santa Barbara na Califórnia, lhe passasse os olhos por cima. Remeti-lhe por isso as folhinhas dactilografadas, cuidadosamente ao abrigo da clássica capa de plástico, e eis que para meu júbilo o prosador de Andanças do Demónio terminaria por conceder o seu aval a tais primícias, levando o apreço ao ponto de logo se oferecer para redigir uma curta nota de apresentação. E daí que a minha estreia no romance haja surgido, isto na óptica de um punhado de desmancha-prazeres, como "excessivamente apadrinhada", visto que aos dois encómios das badanas, o de Eugénio, e o de Jorge de Sena, acrescia um longo prefácio, assinado por Arnaldo Saraiva.

Mas Sena, de quem eu recebera o precioso contributo patrocinante, acompanhado da inverosímil adenda, "Se não gostar, diga-me, e perpetrarei algo de diferente", não cessaria de me surpreender. Saído entretanto o volumezinho, apenas no famoso Verão de 1974 conheceria eu o "vulcão" em "carne e osso", ajustado para o efeito um encontro na Quinta das Virtudes no Porto, sede da Cooperativa Árvore, e instituição que para meu desespero se me depararia encerrada, e entre ruas desertas, no tórrido sábado pós-revolucionário. Aguardei à soleira que despontasse o meu insigne protector, e vislumbrei-o por fim, a descer paulatinamente a rampa contígua ao Palácio da Justiça, identificando-o com base nas fotos com que me cruzara, mas afigurando-se-me no momento de estatura verdadeiramente gulliveriana.

Rumámos à esplanada de um café, e quando, porventura buscando um tema de conversa que nos situasse além das letras, aludi a um filme que pouco antes me assombrara, La Strategia del Ragno, de Bernardo Bertolucci, senti-me baptizado com a infinita cultura do caminhante pelo mundo que em breve nos presentearia com Peregrinatio ad Loca Infecta. Desafiou ele fulgurantes comentários sobre a fita que igualmente admirava, mas integrados no relato da filmografia do realizador italiano, e apoiados em datas e apreciações para cada item, o que me deixaria na mudez do discípulo subjugado pelo temor reverencial. E meses depois, solicitando-lhe informes sobre António Botto, cuja lírica eu tencionava expurgar de banalidades numa antologia que nunca ultrapassaria o estatuto de projecto, tamanho se revelaria o acervo de pistas de investigação que Sena me proporcionou que suspeitei guardar ele próprio a tarefa acabada, e prestes a saltar-lhe das mãos.

Era assim o gigante de que a gente comum se não apercebera ainda, e que os mais responsáveis continuavam a fingir ignorar. O seu romance Sinais de Fogo, lançado em plena liberdade, facultar-nos-ia facetas não menos cintilantes do alto engenho deste homem que a doença começava a devorar. E contemplando-o nessa época, reduzido ao espectro mirrado para que tendemos todos nós, principiava eu a despedir-me dele, esparso como parecia constituir sua sina, através das imagens que os jornais estampavam, e em que ia aflorando um rosto irreconhecível.

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