Um Poeta na Permanência de Deus

Creio que, se me excluir a mim mesmo, Manuel António Pina terá sido o escritor português, de quantos nasceram já no século XX, com quem mais remotamente convivi. A questão da "alteridade", formulada em termos de se averiguar quem afinal escreve, se nós mesmos, se o outro, interessava sobremaneira ao autor do mais extenso título da nossa poesia, Ainda não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É apenas Um Pouco Tarde. Falo por isso de mim como ele gostava de falar de si, ilustrando o tema que continua a fazer as delícias dos psiquiatras debruçados sobre as naturezas criativas, e sobre as diversas patologias com elas conexas, ou talvez não.

Recordo perfeitamente uma noite de Verão, quando ambos andávamos pelo fecho da adolescência, e nos encontrávamos na Feira Popular do Porto, postados diante de uma barraca identificada por um letreiro em que se lia, "Pavilhão do Zequinha". Íamos para lá jogar matraquilhos, e o Zequinha era um boneco em forma de velhote, movido pela electricidade, que se contorcia numa gargalhada perpétua, a receber-nos logo à entrada. Ali me achava eu nessa pré-história, a discutir com Pina, e com seu irmão João, os comparativos encantos de duas vedetas da canção francesa da época, Françoise Hardy que possuía uma longa e sedosa cabeleira, derramada pelos ombros, e Sylvie Vartan que exibia uma delícia fisionómica, aquele espaçozinho entre os incisivos centrais do maxilar superior.

Nunca tendo chegado a tornarmo-nos amigos próximos, cruzávamo-nos porém amiúde em vários eventos, ou em jantares e almoços de circunstância, nos quais Manuel António Pina não cedia aos prazeres do palato, preferindo a estes o infrene tabagismo que julgo o acompanharia quase até à morte. Dialogávamos sobre matérias anódinas, políticas ou não, e também sobre a vida literária lusa, focando-a nos seus aspectos mais risíveis, ou mais abjectos. Pina possuía admirável sentido de humor, mas abstinha-se, em consequência de uma espécie de invulgar respeito humano, de o exercer indiscriminadamente.

De trato franco, e muito simpático, o poeta deixava rendidas em particular as letradas de idade madura, com quem entretinha uma atitude reverente, mas sem sombra de submissão. E era nos cafés que parecia abraçar a sua essência, quase residindo neles até às tantas da manhã, e à semelhança de inúmeros companheiros nossos, na era em que isso se mostrava possível, quero dizer, nos anos setenta e oitenta. Mais caloroso nesse habitat, e fumando em cadeia, surgia-me assim Manuel António Pina, a despontar de um húmido nevoeiro, e a encarnar os traços do rosto de Rudyard Kipling, ou de James Joyce.

Seria no Orfeuzinho, pouso institucional de uma mão-cheia de literatos da Invicta, que a certa altura me confessaria ele com divertido pudor, "Tudo quanto escrevo agora desemboca em Deus". Respondi-lhe que dera comigo em apuros idênticos, herdeiros como éramos do ateísmo bem-pensante da década de sessenta que nos formara, e admito hoje que a mútua confidência tenha desbloqueado alguma coisa do nosso relacionamento. Voltaríamos muito depois a conversar sobre o magno assunto, mas em público, o que porventura subtrairia boa dose de inocência à cumplicidade que se firmara à mesa do café.

De repente um crítico e ensaísta, indubitavelmente grande, e a residir em Lisboa como os maiores do país, repararia na excepcional qualidade da obra poética de Pina. Mais notório pelos seus contos, e pela sua dramaturgia, na área infanto-juvenil, a "descoberta" surpreenderia tão-só os distraídos. De facto, trabalhando no Burgo, e deslocando-se muito de longe a longe à capital, mas não para marcar presença nos pontos nodais da administração dos talentos, Manuel António Pina conferia plena justificação ao defunto slogan, segundo o qual "Há sempre um Portugal desconhecido à sua espera". A partir de semelhante "revelação" contudo transformar-se-ia numa figura de culto, em cuja condição se reviam as minorias líricas, mas essas de terceira, quarta ou quinta categoria, que se defendiam com a apresentação do seu anonimato como certificado de excelência.

Numa última fase do seu percurso, publicando diariamente no Jornal de Notícias crónicas esplêndidas de inteligência, ironia e rigor no manejo da língua, em que abordava apenas o que lhe apetecia, e não o que os leitores desejavam que lhe apetecesse, Pina sofreria uma gradual metamorfose do seu temperamento. Permanecendo afectuoso e solidário, denotar-se-ia nele contudo um como que crescente azedume, resultado provável da degradação da sua saúde. E lamento não lhe haver segredado então, e com todas as letras portuenses, enquanto viajava a seu lado na barquinha que ruma ao Infinito, "Ouve lá, meu caro, Ainda não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É apenas um Pouco Tarde".

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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