Óscar ou Ele Próprio-o-Outro

Os alunos do Liceu D. Manuel II, do Porto, bafejados pela sorte de contarem com Óscar Lopes entre os seus professores, falavam do mestre com admiração, e até com esse respeito, raro nos adolescentes, que no caso se manifestava independente da inscrição ideológica da família de que provinham. Nascido em Leça da Palmeira, o que explicava a sua inquebrantável ternura por António Nobre, poeta que apesar disso ele incluiria na classe dos pequeno-burgueses reaccionários, Óscar Luso Lopes tornar-se-ia para mim, e misteriosamente, de convívio em simultâneo afectuoso e inacessível. Daí que jamais conseguisse eu tratá-lo pelo nome de baptismo, coisa a que me espantava se afoitassem, e com o maior dos despachos, vários bichos-caretas que pouco o frequentavam, mas que para tal se julgavam legitimados pela permissividade pós-25 de Abril.

A que imputar, interrogava-me amiúde, semelhante temor reverencial? Não por certo ao facto de correspondermos a grupos etários muito afastados entre si, tendo Óscar vindo à luz no ano de meu Pai, porque com uns quantos da sua criação não procedia eu com tamanho formalismo. Creio que a retracção resultaria talvez dessa austeridade que, não lhe pertencendo por natureza, se originava todavia no incompreensível surto de uma espécie de alter ego, ou de duplo, que tomava o controlo dele, e que, havendo sido no passado a Igreja Católica, Apostólica e Romana, acabaria por coincidir com um partido igualmente autoritário, e não menos manipulador. Garantiam-no atreito a oferecer ao colectivo em que militava sacrifícios assombrosos, e até humilhantes, como os que Francisco de Assis praticava em honra da sua Dama Pobreza, e se uns o aplaudiam por tão louvável altruísmo, não faltava quem o lamentasse por lhe escassear o tempo para dedicar aos seus estudos literários a reflexão a que só ele se revelaria apto, designadamente no tocante à análise dos nexos entre gramática e matemática.

Essa estranha entidade que não o deixava livre para decidir, nem para sentir, exprimir--se-ia em várias instâncias. Numa ocasião, e aquando de uma das audições de sábado à noite, promovidas por um amigo comum, tendo escutado uma nova gravação do Pélleas et Mélisande, de Debussy, desabafaria ele com os circunstantes, "Gosto muito, realmente muito, mas interrogo-me sobre se deverei gostar." E num outro momento, propondo-me que assinasse uma petição de matéria política, com cujos termos eu concordava em absoluto, mas que continha num parágrafo final uma ode a um determinado partido, o que me levaria a recusar subscrever o documento, reagiria ele assim, "As circulares afinal não servem em exclusivo para recolhermos adesões, mas também para averiguarmos em que sector ideológico as pessoas se situam."

Em qualquer dos casos não se desprendia destas atitudes, aparentemente maquiavélicas, mais do que a inocência que acompanha quanto de cruel possa coexistir com a santidade. De resto eu sabia-o incapaz de dizer "não", sempre que lhe requeriam a apresentação de um livro que ele percebia medíocre, ou a redacção do texto que valorizasse uma obra patentemente menor. E em diversas circunstâncias me alertaria para o alto preço a pagar por tais generosidades, coisa que ao longo da vida me tenho cansado de comprovar.

A todo o instante solicitado para intervir em sessões que o regime salazarista olhava com indisfarçável suspeita, seguia-o infalivelmente um agente da PIDE, fingindo-se atentíssimo entre a assistência. E ao avisarem-no uma vez da presença do filantrópico polícia, Óscar Lopes responderia com a mais soberana das calmas, "Mas conhecemo-nos perfeitamente, esse senhor e eu, e até nos cumprimentamos, se acontece de nos encontrarmos aqui ou acolá." Em datas simbólicas para a resistência antifascista, o 31 de Janeiro, ou o 5 de Outubro, e nas cerimónias cemiteriais dos lutadores da esquerda, lá o tínhamos, ao grande professor, a proferir a alocução da praxe. Tão habituados a isso se achavam os que a esses actos compareciam que houve um cavalheiro que terminaria por lhe confidenciar, "São extraordinários estes seus discursos, Senhor Doutor, e acredite que me tenho perguntado, "Quando o Senhor Doutor morrer, quem sobrará por aí com qualidade suficiente para fazer o seu elogio fúnebre?""

Verifico agora que ousei aludir a Óscar sem mais, prescindindo do seu título académico, e do seu apelido, e vejo o espontâneo atrevimento como atestado da saudade que me deixaram os diálogos com o inesquecível historiador e teórico da nossa literatura. Divirto-me hoje, o que ele me perdoará, com a recordação do embaraço que me acometia, quando em alguma função mais exaltante me enfiava o seu braço no meu, e me impelia a balouçar, cantando a Grândola, Vila Morena. Confesso que não se manifestava em tais apuros menor o meu constrangimento do que quando na escola primária, menino de bivaque, calções e um esse maiúsculo na fivela do cinto, me obrigavam a trautear o Hino da Mocidade Portuguesa.