O Natal Passado de David Mourão-Ferreira

Talvez o mais citado poema natalício do nosso século XX seja a Ladainha dos Póstumos Natais, de David Mourão-Ferreira, e nele se ilustram duas facetas notórias da personalidade do poeta. Nas suas linhas denuncia-se o gozo da intimidade doméstica, não raro erigida por David em chancela pessoal, e apesar do mundanismo de que se tornava fácil acusá-lo. Por outro lado deduz-se dos mesmos versos a magoada reflexão sobre a transitoriedade das coisas terrestres, tema em que exercitaram o seu engenho os imperadores Adriano e Marco Aurélio, familiares como Mourão-Ferreira da Bacia Mediterrânica, e como ele debruçados para a melancolia da existência, tocada pela exaltação da beleza, que tanto deve aos estóicos como aos epicuristas.

Na sua residência da Avenida Júlio Dinis em Lisboa, e diante do enorme espelho de Murano, os serões em que David Mourão-Ferreira reunia alguns amigos atestavam o culto da convivialidade isenta de formalismo, mas fecunda de assunto, situada a milhas de distância da chamada "vida literária" que ele de resto execrava. O autor de Matura Idade agasalhava os joelhos na manta emblemática do sedentarismo dos prosadores, e era como se nos abrigasse numa roda de calor tribal, ávida de todas as notícias, e de todas as narrativas. E a curiosidade intelectual de Pilar, constante discípula do mestre com quem viria a casar-se, pairava sobre o conciliábulo, ora acrescentando um detalhe ao relato do marido, ora inserindo uma correcção no respectivo teor.

Sem reservas de lugar cativo, e um pouco ao sabor das circunstâncias, ali concorria quem calhasse, a Joana Varela, à época secretária da revista Colóquio/Letras, a Olga Gonçalves, o Rafael Gomes Filipe, o psiquiatra Pedro Luzes de quando em quando, o Michael e eu. Mas a presença mais cintilante marcava-a Maria Alzira Seixo, catedrática já da Faculdade de Letras de Lisboa, e baptizada por mim de "A Ana Magnani da Literatura Lusa", em consequência da sua terribilità, patentemente meridional. Uma vez terminado o diálogo académico, estabelecido com o nosso anfitrião, sobre as vastas construções mentais dos luminares da Semiótica internacional, Maria Alzira punha fecho à noitada, lendo-nos certeiramente a sina na palma da mão, tarefa de que se desempenhava com virtude de autêntica cigana do Vale do Tejo.

Se porventura me confiassem nessa fase a incumbência de eleger o português da Europa, e tão natural dela como Aquilino Ribeiro se mostrava da Beira Baixa, não hesitaria eu em apontar David para o lugar de topo, sem segundo, nem terceiro. Apenas ocasionalmente trilhando os caminhos europeus, mas com particular desvelo da sua adorada Itália, Mourão-Ferreira talhar--se-ia um cosmopolitismo que Eça de Queirós, António Nobre, ou o dito Aquilino, havendo vivido embora longos anos em Paris, jamais lhe disputariam. E em Giacomo Casanova, incansável viajante das cidades-chave do velho continente, e incorrigível coureur de femmes, encontraria talvez o ficcionista de Um Amor Feliz, descontado o pendor do veneziano para a baixa patifaria, a alma-gémea em que se mirava entre divertimento e respeito.

Está visto que uma índole assim, servida pela inteligência dos afectos, a criatividade da imaginação, e o incomensurável poder de seduzir, não deixaria de suscitar inveja e acrimónia. Não lhe perdoavam o cachimbo que constituía menos um utensílio fumante do que um adereço da verve, nem se conformavam com o elitista hífen com que ele insistia em separar o Mourão do Ferreira. A cada um respondia com tácita indiferença soberana, sempre que a grosseria não reclamava desforço de calibre maior, ou aplicando a quem o molestasse a alcunha chocarreira que duraria pelos séculos dos séculos. Muito perceptivo das fragilidades da arte dos confrades, e verberando com implacável indignação, ou com troça hilariante, as deformações gramaticais, o mau gosto clamoroso, ou a empáfia filosofal, David convertia-se portanto no alvo privilegiado dos ressentidos, os quais lhe assacavam o delito de "escrever bem em excesso", coisa que conforma a recorrente arma defensiva dos que não conseguem reter-se de "escrever mais ou menos mal".

Voltando agora ao tal poema, evocativo do Natal post--mortem, eis que chama ele para a mesa da consoada os que amámos e sepultámos, e cuja memória lentamente se apagará, levando consigo quantos peregrinam a um além, libertos da suspensão entre vida e morte. E com o primeiro Natal depois de nós, o que David Mourão-Ferreira profetizou, arrumam-se as figuras de barro do presépio, e as bolas coloridas do pinheiro, até que um novo nascimento do Messias se nos ofereça como uma espécie de eternidade que vem a seguir.

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