No Reino Flutuante

Ao longo de mais de quatro décadas, e praticamente sem intercadências, Eduardo Prado Coelho exerceria um magistério importantíssimo, mas não raro desmesurado, na nossa vida cultural. Protagonista único na constância da recepção dos objectos das letras, a acrescer a episódicas incursões ao universo do cinema, ou ao campo da política, acabaria por cunhar uma matriz estética, hoje em dia legitimamente avaliável. Os critérios de gosto a que se ateve, e que amparariam um punhado de praticantes de um certo vanguardismo dos anos sessenta, seriam como é natural substituídos por distintas propostas que tão-só de longe a longe, e ao sabor de amizades pessoais, Prado Coelho sufragaria a contragosto, e com risco de resvalar para o sectarismo.

Último representante de uma sequência geracional portuguesa, indefectivelmente atenta às notícias de Paris, o crítico universitário, mas judicativo, que Eduardo Prado Coelho encarnava olharia de soslaio as mudanças de paradigma, se bem que cultivando sem quebra uma aparência de "modernidade", mediante um alerta ao vient-de-paraître, quando enfeudado às declinações do "experimentalismo". A esse respeito sempre me intrigaria por exemplo a veemente paixão que dedicava a Agustina Bessa-Luís, não por se mostrar o sentimento injustificado, mas por concomitantemente permanecer o que dele fruía insensível aos elos da cadeia que se iniciara em Camilo, que prosseguira com Aquilino e Tomaz de Figueiredo, e que acharia na autora de Os Incuráveis a sua renovada expressão.

A causa de uma tal contradição situar-se-ia porventura numa espécie de alergia de Prado Coelho àquela ruralidade que Agustina não deixava de frequentar, mas que, tocada amiúde na romancista pela expansão de uma veia filosofante, produziria a ambiguidade, e a espessura, que tanto fascinavam o seu devotado leitor. Urbano por excelência, se bem que de uma capital da periferia europeia, semelhante confinamento conduziria Prado Coelho, e um ou outro jornalista, seu epígono, a cometerem uma mão-cheia de injustiças, no caso dele todavia corrigidas muitas vezes com coragem de louvar. Falando-lhe eu de um poeta excelente, Daniel Faria, emergido no interior do país, e portanto fora dos circuitos habituais, confessar-me-ia ter levado o seu tempo a acreditar na qualidade da poesia de alguém que como Daniel era monge beneditino, e de um mosteiro de Entre-Douro-e-Minho. E o que nisto se continha de arreigado preconceito, mas também de admissão desassombrada do erro, constituiria a meu ver um dos traços mais vincados da personalidade do nosso ensaísta.

A brilhante inteligência deste homem, e a sua extraordinária capacidade de cruzar dados, dissipar-se-iam entretanto por textos de ocasião, intervenções em colóquios, ou em mesas-redondas, apresentações e discursos comemorativos, a definir esse "reino flutuante" que surge como título de uma das suas escassas obras, impressas em livro. Apenas na fase final do seu percurso, e então com ainda mais intensa tenacidade, as crónicas que assinaria num jornal de referência alcançariam congraçar muitas das suas ideias, espraiadas por entre aspectos saudavelmente autobiográficos do quotidiano. A morte porém colhê-lo-ia cedo de mais, e sem margem para sistematizar os escritos testemunhantes da sua indiscutível relevância como analista da época que lhe coube, e da qual ninguém como ele conseguiria facultar-nos a grande angular.

Tendo conquistado adeptos fidelíssimos, mas também, o que nos dá a dimensão do seu gigantismo, encarniçados inimigos, Prado Coelho atravessaria a existência no gozo de um como que epicurismo do saber, ciente de que as artes, e no caso dele com a tónica na literatura, e nos filmes, mas não nas manifestações plásticas, teatrais e musicais, correspondem ao máximo de futuro que se abrange no presente. Indissociável da velha capital do Império falecido em Alcácer-Quibir, e com tudo quanto de bom, e de mau, resulta daí, Eduardo Prado Coelho terá contemplado uma área limitada da "portugalidade", vocábulo que suponho lhe suscitaria sincera antipatia. Mas o seu espírito pairará porventura sobre determinados lugares do encontro alfacinha, uma livraria, um bar, um café, ou um restaurante, onde ele tanto apreciava encontrar-se com "gente conhecida".

Dir-se-ia chegado o momento de se encetar a reunião estruturada dos inúmeros dispersos desta figura, omnipresente num passado não muito distante de nós. Será tarefa adequada a oferecer-nos um retrato a corpo inteiro, e não uma sequência de perfis, e empresa a que importa que se abalancem os que lhe foram mais dedicados, e que ele admirava. Entre estes só efemeramente, e com mágoa sua, se incluiria, conforme se adivinhará, o subscritor destas linhas.

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