Namora ou O Encontro Adiado

As relações inter-geracionais na literatura, sobressaltadas pela alternância dos modelos, e pela fixação dos mesmos, diferem de outros diálogos etários pela presença de um factor específico. O registo da sucessão das propostas coincide com a própria actividade criativa, o que se denuncia pela expressão scripta manent, a atestar com clareza a recorrência das mudanças de paradigma. Todas as gerações se confrontam, e mutuamente se repudiam, e se não sobrar tempo para que disso reste vestígio, eis que ficará provada a fragilidade das novas opções.

Habituámo-nos a considerar Fernando Namora, e refiro-me aos da minha idade, um exemplo acabado da novelística de massa, e assim teremos incorrido na precipitação dos recém-chegados, bem mais ansiosos da conquista do lugar ao sol do que da análise dos caminhos que a ele conduzem. Numa altura em que as discrepâncias entre oficiais das letras não resultavam tão-só, conforme ao que sucede hoje em dia, de meras questões de gosto, ou de desgosto, ou da elementar circunstância de se ser, ou de não se ser, capaz de pôr o preto no branco, o debate estabelecia-se sobre pertinências a escolas, realista e modernista, neo-realista e surrealista, existencialista e experimentalista, ou entre adeptos, ou não, do célebre retour au récit. E Namora, assumido propugnador da "mensagem", implantava-se diante da parede, e defronte de um implacável pelotão de fuzilamento.

O seu êxito comercial no país, e no estrangeiro, contribuía para a hostilidade que lhe votavam os emergentes, muitas vezes aspirantes a idêntico estatuto, mas incapazes de asseverar a sua verdadeira ambição. Também eu ingressaria em tais fileiras, isto após haver lido na adolescência, e com grande admiração, vários títulos do autor de Domingo à Tarde, constantes da biblioteca familiar. E associando-me aos que propalavam que Fernando Namora "escrevia mal", recordo-me de me entreter ao longo de diversos serões, adestrado por um representante da geração do visado, a vasculhar nos livros deste passagens que nos faziam rir a bandeiras despregadas.

Mas o ponto nevrálgico do meu perturbado convívio à distância com Namora ocorreria quando, morto uns anos antes o romancista, um júri me atribuiu o prémio que leva o seu nome por um fruto de minha safra de escritor. Que direito me assistiria, perguntava-me com algum desconforto, de empochar um galardão que evocava o ficcionista de O Trigo e o Joio? Pois não me achava eu um "trigo", a olhar com sobranceria aquele "joio" que era justamente o patrono da distinção que me conferiam? E lá fui, e lá debitei a discursata da praxe, e recolhi do presidente da República que me entregou o troféu a confidência de que, residindo à vista da casa de Fernando Namora, o vislumbrava a cada passo atrás da janela iluminada, debruçado sobre a sua banca de trabalho.

Lembrando-me de quanto o fustigara até ao termo da vida, e já muito doente, a maldosa crítica à portuguesa, essa que Fialho de Almeida golfara sobre o cadáver ainda quente de Eça de Queirós, ando agora a reler as páginas do homem que afinal destratei. E encontro-o muito acima de não poucos que me treinei para admirar, e a quem bafejou a sorte de não transitarem por purgatório igual.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

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