"Lisboa É Longe"

Tive uma inesquecível amiga, judia alemã, e refugiada em Londres, que nos idos de setenta se me afigurava antiquíssima, e tanto como devo parecer hoje aos que vão na idade em que eu ia na altura. Na sua juventude em Paris Hilda Blum encontrara-se com Nijinski, e falava do bailarino com a memória fresca, e idêntica à que usamos, quando nos referimos agora a Amália Rodrigues. Daí que a crivasse eu de importunas perguntas sobre como era, ou não era, o extraordinário criador de O Espectro da Rosa, e sobre como se manifestavam quantos no grupo dele se haviam tratado por "tu cá, tu lá", Diaghilev, Picasso, Cocteau, ou Stravinsky.

Em termos de proximidade física ao génio, ao verdadeiro génio, apenas me relacionei com uma outra pessoa, a quem amiúde assaltaria com inquirições que visavam satisfazer essa curiosidade, algo fetichista, que despertam os que imaginamos menos de carne e osso do que nós. Alberto de Serpa, poeta e secretário da Presença, privara com Fernando Pessoa, e com boa parte dos de Orpheu, o que o tornava a meus olhos privilegiada fonte de informações sobre aqueles raros, e sobre o esquisito protagonista do "drama em gente". Mas a minha ânsia de averiguar de que massa se fabricaria afinal o dos heterónimos acabava frustrada por esta inalterável resposta de Serpa, "Ninguém dava nada por ele!" Soava-me isto, e quase irritantemente, a essas súmulas com que se caracteriza o vizinho maltrapilho, e meio mendigo, que depois de morto se descobre que escondia um baú de barras de oiro sob as tábuas do sobrado, e debaixo da enxerga.

Eu concebia portanto Alberto de Serpa, acompanhando José Régio, o director da publicação, à capital na década de vinte, no intuito de se avistar com Pessoa numa leitaria esconsa, pedir-lhe a colaboração para a revista, e volver a Coimbra com a frase chocha, a pontuar a marcha do ronceiro comboio, "Ninguém dava nada por ele!" Com o dito Régio, o qual sobre o camarada exerceria por certo um óbvio ascendente, manteria Serpa aliás uma amizade honrada pela mais firme das lealdades. Conduziria esta, e repete-se aqui uma consabida anedota da nossa vida literária, a que os malevolentes o alcunhassem, uma vez finado o autor de Poemas de Deus e do Diabo, de "a Viúva do Régio", ou de "a Chaga do Lado", aludindo assim a mais um título do vate metafísico, actualmente tombado em desgraça, e à circunstância de o secretário da Presença aparecer a cada passo com o seu director.

Quando lhe fui apresentado, a Alberto de Serpa, era ele já um velho frágil, de cabelo todo branco, que abdicara por conselho médico do seu cigarrito, mas que não prescindia, e também por clemente permissão clínica, do seu bagacinho pós-prandial. Chefiava o suplemento de artes e letras de O Primeiro de Janeiro, página em que só admitia textos sobre notabilidades mortas porque, argumentava ele, "essas não entretêm invejas, nem levantam problemas". Explicar-me-ia entretanto que a sua profissão, obrigando-o a andar afastado dos grandes centros, lhe proporcionara o ensejo de se cartear com personalidades interessantes, e de formar um epistolário a que se somariam ulteriores peças de qualidade, adquiridas através dos anos. Daí que se realizasse pelo fecho dos seus dias, organizado por um importante livreiro-antiquário, um leilão de preciosidades em que se incluíam manuscritos do próprio Fernando Pessoa, de Almada Negreiros, de Mário de Sá Carneiro, e de Camilo Pessanha.

Pai de um filho e de uma filha, aos quais modernamente chamaríamos em jeito eufemístico "muito especiais", constava que discutia com eles uma magna questão, suscitadora da risota dos cínicos, na sala de jantar que ainda conheci, e em cujas paredes se suspendiam óleos de Amadeo de Souza-Cardoso, e sobretudo de Dominguez Alvarez, estes representando soturnos cortejos fúnebres, a cinzento e negro. Curava--se de apurar se deveriam, ou não, os seus descendentes comparecer ao enterro do progenitor, considerados os problemas que a sua presença ameaçaria desencadear.

Lisboa É Longe constitui talvez a colectânea mais citada do nosso Serpa, e nela leio o seguinte que reflecte um percurso existencial, se não trágico, definitivamente sem saída,

"E, quando regressares à vida provinciana e igual,

Cairás aos soluços na tua cama incómoda,

Sem sonhos para as noites que virão mais tristes e mais longas..."

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