Lanhas, Pintor e Sábio

Arquitecto, pintor e etnólogo, e sobretudo visionário, Fernando Lanhas atravessaria a paisagem das artes portuguesas como um agente eficaz, mas que me deixava desconcertado. Nunca acertando na definitiva categoria que lhe convinha, olhá-lo-ia eu com uma simbiose de pasmo, estima e interdição, formulando de mim para mim esta pergunta, "Afinal quem é este homem?", declinação da seguinte dúvida, mais ampla, e a que se me tornava impossível responder, "Afinal o que é este homem?"

Compulsando os textos sobre a pintura portuguesa do século XX, encontramo-lo classificado como "o principal promotor do abstraccionismo geométrico". Mas isso pouco nos diz sobre o que Lanhas foi, e sobre o que fez, e em especial sobre o seu pensamento, algo de espantosamente lunar que se lhe reflectia nos olhos azuis, muito claros, e não raro desmesuradamente abertos na busca de alguma coisa, ou na surpresa de a haver encontrado. Constituía assim uma dessas personalidades incapsuláveis, e tão aptas a temporariamente suscitar o caloroso afecto como a escapar por completo ao mundo sensorial. Conversar com ele equivalia por isso a uma espécie de navegação à deriva, na qual ora nos sentíamos arrebatados para um destino irresistível, ora nos apetecia simplesmente desistir de continuar viagem.

E quando Fernando Lanhas não me aparecia como um Leonardo Da Vinci incompreendido pelos mais doutos do Porto, ou pelos burgueses ignorantíssimos da Foz do Douro, a quem ele se referia como "os fedorentos", eu vislumbrava na sua índole um duplo do professor Palomar, cientista excêntrico e saturnino, que surge num dos álbuns do Tintim, e rumam à estrela misteriosa. Semelhante descoberta não me proporcionaria o menor dos divertimentos, sabendo-me na escuridão absoluta sobre a natureza das pesquisas a que para além da sua actividade plástica ele se dedicava, e que evoluíam em torno de grandes penedias, e do firmamento insondável que as cobria. Assustavam-me tais mistérios, e a fim de me livrar de apuros, atribuía sumariamente ao insólito artista a qualidade de génio, e despedia-me em demanda de latitudes mais ao alcance de mim.

Tendo eu certa vez achado, perdido entre muita papelada da biblioteca pública que então dirigia, uma preciosa monografia manuscrita, do punho do arqueólogo José Caldas, sobre uma importante necrópole do Douro Litoral, corri logo a entregá-la à guarda de Lanhas que a acolheria com enorme prazer, e com curiosidade sem limites. Mas eis que, um par de anos decorrido, ao pedir-lhe notícias do documento, esclarecer-me-ia com toda a naturalidade, e sem sombra de embuste, "Quer crer que a perdi?, Sumiu-se sem largar rasto!" E encaminhou-me de imediato para outros temas, isto como se a minha perplexidade desencadeasse nele o sossego de quem acaba de despertar de um sono reparador.

Muito generoso, havendo-se oferecido para me retratar, produziria uma imagem em que excepcionalmente me reencontro. Nela estou eu, de dedos entrelaçados sobre a barriguinha, e na posição que iria irritar um cronista político, sopinha--de-massa e autoproclamado mação, mas com problemas de insegurança identitária. É um belo desenho que me honra, e que me traz à memória, ao passar por ele na parede do corredor de minha casa, um Fernando Lanhas quase infantil nos seus entusiasmos, quase alucinado nas suas realizações, e em suma indefinido na sua fugidia essência. E em nada se me altera o contentamento de me encarar ali, vero e inteiro, quando me lembro de que aquilo com que o mestre me presenteou foi tão-só a mera fotocópia, fidelíssima porém, do trabalho que executara, e cujo original, consoante era seu costume, se recusaria a ceder ao retratado.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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