As Letras da Amizade

Quando dois amigos, e ambos escritores, coincidem no quadro cronológico que os deuses lhes concederam, ou no maior segmento dele, alguns fenómenos interessantes, mas perturbadores, poderão desencadear-se. Se a vizinhança no tempo, e o reiterado convívio, os dispensa de reparar no trabalho um do outro, a defesa que mutuamente empreendem, sempre que ameaçados pelo advento das gerações a seguir, condu-los com frequência ao sectarismo, e ao fechamento às novas propostas de criação. Vasco Graça Moura, e o subscritor destas linhas, unidos por tais factores, exemplificarão talvez, e salvas todas as diferenças, inclusive as qualitativas, semelhante dinâmica.

Nascidos na mesma cidade, o Porto ronceiro e laborioso que vivia à distância os lances da Segunda Guerra Mundial, Graça Moura e eu, separados pela diferença etária de dois meses apenas, estávamos fadados para nos cruzar. Produtos de idêntico estrato social, e com os tiques idiossincráticos que daí naturalmente resultariam, se não nos encontrámos no liceu igualitário, ou num dos três colégios privados, o Almeida Garrett, o João de Deus, e o Brotero, pelos quais se repartia a população da nossa idade, e do nosso conhecimento, acabaríamos por chegar à fala em circunstâncias inescapáveis. E alunos do primeiro ano jurídico da Universidade de Lisboa, acolheríamos os dois, posto que com maior ou menor agrado, o magistério dos catedráticos que se rendiam entre si na lista ministerial do regime, Marcello Caetano, Paulo Cunha, Costa Leite (Lumbrales), Raul Ventura, e tutti quanti. Procurávamos então nas artes e letras o refúgio daquela esfera concentracionária, e muitas vezes filistina, eu tão-só praticando a escrita, e Vasco Graça Moura esta, mas ainda a música, e a pintura. Recordo-me de ter apresentado ele numa exposição de artes plásticas, promovida pela Associação Académica, um óleo intitulado O Almoço do Poeta, no qual se via um vate triste, colocado diante de um prato onde se alongava uma flor estilizada. E nunca mais me esqueceria do papelucho que um engraçadinho afixou ao lado da peça, e que continha esta inocente pergunta, "A flor come-se com talher de peixe, ou de carne?"

Percorremos juntos depois a via crucis da instrução militar para as campanhas coloniais, quer em Mafra onde um também poeta, Gastão Cruz, absorvia as atmosferas que iriam alimentar a sua colectânea As Aves, quer posteriormente num aquartelamento do Lumiar que primava pela falta de asseio do refeitório, e pela hilariante estupidez dos tarimbeiros. Regressado eu das bolanhas da Guiné, reuníamo-nos com assiduidade em jantares de confraternização, e em improvisadas fadistagens, ora em casa de Graça Moura, casado já, pai de filhos, e autor entretanto de obras assinaláveis como Instrumentos para a Melancolia, ora na residência de qualquer um de nós, ora no Hotel Boavista onde ele interpretava, e com brilho, os sucessos irreverentes de Georges Brassens, acompanhando-se à viola. Atravessávamos os amanhãs de Abril que ao ouvido de cada um de nós cantavam uma toada distinta, e as tentações da política arrebatá-lo-iam para a capital, isto enquanto eu permanecia agarrado ao berço, originando-se assim um certo e recíproco afastamento.

Assumindo o cargo de administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Vasco Graça Moura chamaria a colaborar consigo uns quantos da sua roda de amizades, incumbindo-os de tarefas de vária natureza, e editando-lhes os livros. E quando lhe censuravam a estratégia de favorecimento dos que lhe eram mais próximos, respondia com meridiana razoabilidade, "Se aqueles que vou buscar possuem talento, e acrescidos requisitos que valorizo, sendo além disso do meu círculo de afectos, o que pretendem vocês?, que ande a convocar os meus inimigos?" Estreitar-se-iam nessa fase, e em consequência da partilha dos projectos em que nos envolvíamos, os nossos conciliábulos.

E ao revermo-nos mais recentemente, procedíamos à recapitulação de memórias comuns que porventura deixariam indiferentes os circunstantes. Evocávamos as adivinhas musicais com que entretínhamos as viagens do fim-de-semana que a tropa nos consentia, trauteando um de nós uma passagem dos grandes compositores, a qual teria de ser identificada pelo que a escutava. E por entre as confidências com que me brindava, da decifração de mais um mistério camoniano, divertíamo-nos noutras ocasiões a relembrar a célebre açorda de grão-de--bico que ele inventara numa madrugada de farra portuense.

Ao tornar-se presa da doença que o mataria, de forma declarada no princípio, mas sinuosamente mais tarde, eis que efectuaria eu a pirueta da praxe. Passei a contactá-lo telefonicamente, atestando essa vertente do meu carácter, ou descarácter, que os simples, e eu com eles, lemos como prova de pura e reles cobardia. E quedar-me-ia na esforçada convicção do costume, a de que me recuso a presenciar o apagamento progressivo dos irmãos que amo, e que sei que para sempre durarão.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico