Não falta mérito às mulheres

1. As mulheres, hoje tão qualificadas como os homens, têm uma presença significativa em profissões técnicas, científicas e de gestão. Porém, em Portugal as mulheres têm uma participação reduzida nos lugares de direção, nomeadamente nos lugares de topo das instituições políticas e económicas. Noutros países, em que as mulheres partilham hoje com os homens aqueles lugares, foram há muito introduzidas quotas para mulheres. Em Portugal, as quotas foram fundamentais para o aumento da presença das mulheres na direção dos partidos políticos, nas autarquias e no Parlamento.

2. Perante a proposta do governo de estabelecer a obrigatoriedade de reserva de uma percentagem de lugares para mulheres nos conselhos de administração e de supervisão de empresas cotadas em bolsa, surgiram, no debate público, críticas e argumentos contra a política de quotas. Uns consideram que as quotas atrapalham a vida das empresas e o seu desenvolvimento. Outros argumentam que o afastamento das mulheres dos lugares de topo se explica pelas responsabilidades familiares com a maternidade e o cuidado dos filhos. Outros, ainda, defendem que a única forma digna de as mulheres acederem aos lugares de topo é através do esforço e do mérito. Não por serem mulheres.

3. Não falta mérito às mulheres. O mérito e a inteligência têm curvas normais de distribuição estatística, globalmente e por sexo. Quer isto dizer que no mundo existe um número igual de mulheres e de homens com mérito, com inteligência, que se esforçam e são bons profissionais. A razão por que as mulheres não acedem aos lugares de topo nada tem que ver com as suas capacidades ou qualificações, mas sim com o facto de serem mulheres, com a inércia das redes de recrutamento para os lugares de topo, no passado completamente monopolizadas por homens e por isso ainda hoje muito menos participadas por mulheres do que o espaço social no seu conjunto. Para, contra esta inércia, aceder a lugares de topo nas instituições políticas e económicas, às mulheres não chega ter mérito. É precisa sorte ou um grau de excelência, muito para além do mérito normal, que não se exige aos homens.

4. Vivemos, infelizmente, num tempo em que ainda está naturalizada a ideia de que uma parte do espaço público pode ser construído apenas com a participação dos homens. Conformamo-nos com demasiada facilidade com a ideia de que na direção de topo das instituições políticas e económicas a presença das mulheres pode ser dispensada, com a ideia de que é aceitável a existência de equipas de dirigentes totalmente masculinas. Nas empresas, nas universidades, nos órgãos de comunicação social, nos programas de debate público, no espaço de opinião, nas associações sindicais e empresariais a ausência de mulheres é naturalizada. Até em instituições em que a maioria dos profissionais são mulheres se vê, com frequência, equipas de direção constituídas exclusivamente por homens.

5. Para mudar esta situação temos duas opções. A primeira é esperar pacientemente pela chegada das novas gerações, acreditando que as mulheres irão chegando progressivamente aos lugares de topo. A segunda é recusar a inação e introduzir regras e mecanismos que forcem as instituições a mudar o seu funcionamento no sentido de uma maior abertura à participação das mulheres. Sou claramente a favor das quotas. É verdade que para algumas mulheres elas não foram necessárias. Mas essas mulheres são casos isolados, exceções. A igualdade não existe quando o esforço para se chegar ao mesmo lugar está tão desigualmente distribuído entre homens e mulheres. Para que o número de mulheres nos lugares de topo resulte do mérito e não do excecionalismo são necessárias quotas. O exemplo de outros países e da nossa própria história recente mostra que a introdução de quotas permite acelerar a mudança e dar resposta às exigências de igualdade das atuais gerações de mulheres adultas. Não há razão para adiar essa resposta para o tempo das suas netas.

6. É claro que as responsabilidades familiares, a maternidade e o cuidado com os filhos pesa mais sobre as mulheres do que sobre os homens. É também verdade que o trabalho das mulheres tem custos económicos e sociais e implicações na vida das empresas e das organizações decorrentes da maternidade. É ainda verdade que as responsabilidades familiares são percebidas por muitas mulheres como verdadeiros impedimentos para assumir outras responsabilidades. Mas isso significa apenas que precisamos de novas políticas para remover ou minorar os obstáculos à plena participação das mulheres. É pois imperioso acompanhar a introdução de quotas com políticas públicas de apoio às famílias na educação dos filhos, políticas que facilitem a conciliação trabalho-família e que promovam a igualdade entre sexos.

7. Perguntará o leitor: mas porque é tão importante a participação das mulheres nos espaços de decisão política e económica? Se outras razões não houvesse, havia a da equidade. A razão que resulta do facto de as mulheres serem metade da população. Tão qualificadas, tão inteligentes e tão capazes como a outra metade e com o direito e o dever de participar em todas as esferas da vida.

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