Compreender a revolta populista

1. O mundo do trabalho está incomparavelmente melhor do que há 130 anos, quando as lutas operárias, por melhores condições de trabalho e por salários mais justos, foram fortemente reprimidas e levaram à condenação à morte de dirigentes sindicais. Hoje, os trabalhadores têm níveis de qualificação mais elevados, a participação das mulheres no mercado de trabalho está naturalizada, o trabalho infantil foi erradicado, a figura do contrato baseada nas ideias de trabalho decente e com direitos foi generalizada e, com o progresso tecnológico, os postos de trabalho mais duros, tanto na indústria como na agricultura, foram eliminados. É verdade que persistem alguns dos problemas iniciais, como o da desigualdade salarial entre homens e mulheres. Contudo, foi possível, em geral, estabilizar um equilíbrio protetor do trabalho na relação de forças entre trabalhadores e empregadores.

Na Europa, os sindicatos e a institucionalização da negociação tiveram um papel muito importante naquelas mudanças, sobretudo pela sua capacidade de construir alianças com os partidos políticos sociais-democratas e democratas cristãos. Tais alianças resultaram, em alguns países, no reforço sempre crescente do papel e da representatividade dos sindicatos, como é o caso dos nórdicos. Noutros, não foram suficientes para impedir uma perda efetiva de relevância e de capacidade de intervenção, como é o caso dos países do Sul.

2. O mundo do trabalho continua a mudar. O crescimento dos serviços, a globalização e a financeirização da economia, o aumento das desigualdades salariais entre gestores e trabalhadores, a estagnação dos salários médios, a automatização e o aumento de produtividade, a liberalização e desregulação dos mercados, em geral, e do mercado de trabalho, em particular, são fenómenos que estão a gerar novas clivagens e desigualdades sociais. Desempregados de longa duração, trabalhadores com vínculos laborais precários, jovens qualificados sem emprego, funcionários e trabalhadores de serviços com baixos salários e sem perspetivas de mobilidade social formam um exército de novos "dispensáveis" que alimentam as novas revoltas. Para estes não tem havido respostas eficazes nem do lado dos sindicatos nem dos lados dos partidos sociais-democratas.

Em contrapartida, o populismo e o nacionalismo, sobretudo de direita, prometendo para amanhã o paraíso na Terra, conseguem convencer os cidadãos de que são alternativa. Sabemos, até pelas lições da história, que nem o populismo nem o nacionalismo resolverão qualquer dos problemas atuais. Porém, na ausência de respostas alternativas, já estão a ganhar! Não são apenas uma ameaça que paira ou um perigo no futuro breve. Constituíram-se como alternativa política e já ganharam no Reino Unido, com o brexit, e nos EUA com Trump, bem como na Hungria e na Polónia, onde são governo. Tiveram um sobressalto na Holanda, mas não foram derrotados. E continuam a ganhar mais e mais espaço de representação em França e em Itália.

3. A revista Social Europe dedica o seu último número (vol. 11, Primavera de 2017) a este tema, com o título "Understanding the Populist Revolt". O objetivo principal é refletir sobre os erros e as dificuldades, isto é, as responsabilidades que os partidos políticos tradicionais têm tido no crescimento do populismo, seja pela promoção de políticas inadequadas como pela desatenção e incapacidade para resolver alguns problemas concretos. Foram as políticas económicas neoliberais de enriquecimento das elites, de erosão das classes médias e de exclusão dos "dispensáveis" que criaram terreno fértil para o populismo. Este cresce como resposta racional ao aumento das desigualdades e perante a incapacidade de a esquerda apresentar e pôr em prática, quando é governo, políticas económicas alternativas que desafiem a hegemonia do pensamento neoliberal sobre a economia e os mercados.

Os vários autores que colaboram naquele número apontam três condições para que a esquerda social-democrata e socialista volte a ser uma alternativa política capaz de derrotar o populismo e o nacionalismo:

- o enfrentamento do problema das desigualdades, com políticas eficazes de distribuição que valorizem o trabalho e com políticas de redistribuição promotoras da igualdade de oportunidades;

- a regulação dos efeitos da globalização e da inovação tecnológica, viabilizando e promovendo o emprego;

- o reforço da qualidade de funcionamento da democracia e das instituições democráticas para ganhar de novo a confiança dos cidadãos, garantindo o respeito pelos princípios da justiça e do universalismo.

4. Ou a esquerda reforma profundamente o capitalismo ou a direita nacionalista e populista continuará a ganhar terreno. Agora, ou em próximas eleições. Mais lentamente ou já no próximo fim de semana em França.

Ideias feitas - Os sindicatos são instituições do passado?

Não, necessariamente. Tudo depende dos países, o que quer dizer que tudo depende das políticas e do tipo de sindicalismo. Em Portugal, a taxa situa-se na casa dos 19%, muito próxima da média da OCDE (17%). Nos países nórdicos e na Bélgica, as taxas de sindicalização continuam bem acima dos 50%, e próximas dos 70% na Dinamarca, na Finlândia e na Suécia. Historicamente, taxas de sindicalização elevadas estiveram associadas ao desenvolvimento do Estado social e à redução das desigualdades.

A espuma dos dias

Soubemos ontem que, em Portugal, os gestores das empresas cotadas em bolsa ganham até cem vezes do que ganham, em média, os trabalhadores dessas empresas. Dados do Eurostat revelam que Portugal é o país da União Europeia com maior desigualdade salarial. Na quinta-feira dia 11, Robert Reich profere uma conferência no ISCTE com o título "Como a desigualdade nos Estados Unidos criou Trump: um aviso à Europa".

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Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?