A crueldade como política

1. Chega hoje ao fim a minha colaboração semanal com o Diário de Notícias neste espaço. Foram 18 meses de artigos de opinião em que tratei assuntos, sempre diferentes. Três temas foram recorrentemente tratados: o défice educativo em Portugal, o ressurgimento das desigualdades e, por fim, a ameaça populista, nacionalista e xenófoba da era Trump.

2. O tema em que é mais clara a agenda de Trump e dos seus amigos europeus é o das migrações internacionais. É verdade que este é um tema em que há menos inocentes do que deveríamos esperar. Em particular na Europa, já descrita por muitos como um relutante continente de imigração, temos assistido, com demasiada frequência, a cedências, ao centro e à esquerda, a uma das bandeiras da direita nacionalista que proclama a imigração como ameaça. Depois, para travar o que se define como ameaça, adotam-se, nos dois lados do Atlântico, estratégias de dissuasão da imigração, colocando o máximo de obstáculos à mobilidade e integração dos migrantes. Obstáculos à mobilidade que favorecem a substituição da imigração regular pela migração irregular e obstáculos à integração que se traduzem em reduções prolongadas dos direitos dos estrangeiros emigrados. Pelos vistos, espera-se que o sofrimento e as dificuldades associadas à migração induzam a desistência dos potenciais candidatos à sua realização.

3. Ultimamente, deu-se um gigantesco passo em frente nesta estratégia. Para além dos obstáculos, recorre-se agora, sem pudor, ao exercício da crueldade como instrumento político para a dissuasão das migrações. Trump, como seria de esperar, dá o exemplo, com a sua política agressiva e generalizada de roubo das crianças dos imigrantes em situação irregular. Crianças que, argumentam os amigos de Trump na Fox, podem ser maltratadas porque "não são as nossas crianças". Na Europa, Salvini segue-lhe as pisadas e proclama com orgulho a decisão de deixar à sua sorte as famílias de migrantes num barco abandonado. E quando, arrepiados, nos congratulamos com o facto de, pelo menos, não vivermos num dos já muitos países europeus conquistados por esta direita nacionalista e xenófoba, eis que nos chegam notícias da França de Macron. De acordo com o noticiado, em postos da polícia francesa perto da fronteira italiana retalham-se as solas dos sapatos dos imigrantes jovens apanhados a passar a fronteira, para que estes, depois de recolocados em Itália, não tenham condições de caminhar e, assim, de voltar a tentar a passagem para França.

4. O uso da crueldade como política requer a afirmação pública da legitimidade dessa crueldade. E isso é um retrocesso lamentável no caminho para uma sociedade mais decente. Retrocesso pelo que significa para quem é objeto da crueldade, mas retrocesso também pela total falta de vergonha no uso político da crueldade e na busca de adesão a esse uso. Estamos a entrar numa era que se distingue mal dos tempos em que eram regra as execuções e castigos corporais em público, bem como a recusa do estatuto de humanidade aos adversários. Tempos que teimam em ressurgir numa era de maior civilidade e decência, como ficou claro nas duas guerras mundiais do século XX.

5. Num mundo desigual, como aquele em que vivemos, é normal que quem vive pior tente a sua sorte com a emigração. E para além de normal é louvável que quem o tente não o faça pensando só em si, mas sobretudo nos filhos para quem se deseja um futuro melhor. Reagir a este facto fazendo recair sobre as crianças o custo maior do ato dos pais era, até há pouco tempo, algo impensável. Ouvir dirigentes e comentadores políticos orgulharem-se deste tipo de política, de abuso cobarde do poder da força, estava muito para além do concebível. Hoje, não são apenas os migrantes que atravessam fronteiras cada vez mais perigosas. Vivemos todos o enorme risco de sermos levados para além das fronteiras da decência num trajeto em que é cada vez mais difícil travar e inverter a marcha. A falta de reação mais eficaz a estas políticas, a sua aceitação como uma inevitabilidade terá certamente consequências.

6. Tenho pena de acabar esta presença nas páginas impressas do DN a falar de Trump. Mas é melhor falar repetidamente de Trump e dos seus amigos europeus do que deixar que se naturalizem as suas políticas e se instale uma espécie de anestesia que leva à inação.

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O apaziguamento da arena de conflitos em que perigosamente tem sido escrita a história das relações entre as potências no ano corrente implica uma difícil operação de entendimento entre os respetivos competidores. A questão é que a decisão da reunião das duas Coreias, e a pacificação entre a Coreia do Norte e os EUA, não pode deixar de exigir aos intervenientes o tema dos valores de referência que presidam aos encontros da decisão, porque a previsão, que cada um tem necessariamente de construir, será diferente no caso de a referência de valores comuns presidir a uma nova ordem procurada, ou se um efeito apenas de armistício, se conseguido, for orientado pela avaliação dos resultados contraditórios que cada um procura realizar no futuro.

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Os floristas da Rua da Alegria, no Porto, receberam uma encomenda de cravos vermelhos para o dia seguinte e não havia cravos vermelhos. Pediram para que lhes enviassem alguns do Montijo, onde havia 20, de maneira a estarem no Porto no dia 18 de julho. Assim foi, chegaram no dia marcado. A pessoa que os encomendou foi buscá-los pela manhã. Ela queria-os todos soltos, para que pudessem, assim livres, passar de mão em mão. Quando foi buscar os cravos, os floristas da Rua da Alegria perguntaram-lhe algo parecido com isto: "Desculpe a pergunta, estes cravos são para o funeral do Dr. João Semedo?" A mulher anuiu. Os floristas da Rua da Alegria não aceitaram um cêntimo pelos cravos, os últimos que encontraram, e que tinham mandado vir no dia anterior do Montijo. Nem pensar. Os cravos eram para o Dr. João Semedo e eles queriam oferecê-los, não havia discussão possível. Os cravos que alguns e algumas de nós levámos na mão eram a prenda dos floristas da Rua da Alegria.

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