Garantir que todos aprendem a ler e a escrever bem

1 Nos últimos 40 anos, tudo melhorou na educação. Conseguimos garantir que as novas gerações estudam mais e durante mais tempo, em escolas de melhor qualidade, com mais professores e mais recursos, com melhores métodos de ensino e de aprendizagem. Foi enorme o progresso no que respeita à democratização do acesso à escola.

Porém, temos ainda um longo caminho a fazer no que respeita à democratização do sucesso, um longo caminho a percorrer para garantir que todos aprendem. O insucesso anual de mais de cem mil alunos que, do 2.º ao 12.º ano ficam para trás, é o sinal de que a nossa escola não é ainda para todos, é o sinal de que, apesar de todos os progressos conseguidos, há ainda muito trabalho a fazer.

As dificuldades de ensino e de aprendizagem, no nosso sistema de ensino, começam cedo. Milhares de crianças iniciam o percurso de insucesso aos 7 anos de idade, logo no segundo ano de escolaridade. Vários investigadores, mas também professores e dirigentes escolares, defendem que na raiz desse insucesso estão as dificuldades com a leitura e a escrita. O facto de muitas das nossas crianças não aprenderem a ler e a escrever bem compromete a prazo o seu desempenho escolar e aumenta muito a probabilidade de repetência e de insucesso.

2 No debate público sobre o insucesso escolar a questão da repetência é uma questão crítica em aberto, a propósito da qual são esgrimidos argumentos opostos. Os que defendem esta prática pedagógica invocam a necessidade de rigor, os críticos da repetência apontam a sua ineficácia na recuperação das aprendizagens, bem como os seus efeitos negativos nos desempenhos escolares futuros.

A maior parte dos estudos concluem que nem a repetência nem a promoção automática (também conhecida entre nós como "passagem administrativa") são soluções para melhorar o sucesso escolar, as aprendizagens, os comportamentos e as atitudes dos alunos. É necessário aprofundar o conhecimento sobre as determinantes e as causas do insucesso escolar, bem como sobre os impactos da repetência no desempenho dos alunos, as possibilidades de recuperação das aprendizagens no curto e no longo prazo, os custos económicos e sociais da repetência e das soluções alternativas de reforço das aprendizagens. A OCDE tem, desde 2007, promovido uma série de estudos e recomendações para que os diferentes países enfrentem o problema do insucesso escolar e encontrem soluções alternativas à repetência que promovam uma aprendizagem efetiva. A palavra de ordem é prevenir: identificar os problemas de aprendizagem, diagnosticar e conhecer para intervir tão precocemente quanto possível.

3 Para responder ao objetivo de conhecer melhor as causas do insucesso escolar em Portugal, sobretudo o insucesso escolar precoce, foi desenvolvido um trabalho de investigação junto das escolas com mais elevados níveis de reprovação dos alunos nos primeiros anos de escolaridade. Procuraram-se respostas para várias questões: em que medida as dificuldades de aprendizagem da leitura explicam o insucesso escolar nos primeiros anos de escolaridade? Que fatores explicam, e em que medida, as dificuldades de aprendizagem da leitura? Que fatores explicam, e em que medida, a resiliência do fenómeno da repetência no 2.º ano de escolaridade? Como são apropriadas e concretizadas, pela escola, as medidas de política educativa visando o sucesso escolar? Como são utilizados os recursos disponíveis?

No dia 22 de maio, a Gulbenkian acolhe mais uma vez um debate sobre os temas da educação. Aí se fará a apresentação dos resultados desse trabalho de investigação sobre "Aprender a Ler e a Escrever em Portugal".

A espuma dos dias

Salvador Sobral é hoje um ídolo porque ganhou (o Festival Eurovisão da Canção). Esperemos que seja também um ídolo por, a meio do seu percurso, ter decidido que para fazer uma carreira musical tinha de estudar (no caso, música).

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