A mancha xenófoba que alastra na Europa

1 Abril de 2009, de visita a um campo de desalojados provisoriamente acomodados em tendas, na sequência do terramoto que afetou a região centro de Itália, Silvio Berlusconi brinca com a situação e recomenda que esta seja encarada como "um fim de semana no parque de campismo". Parece que agora o mau gosto de Berlusconi fez escola e é traço comum no discurso dos populistas que chegaram ao poder em Roma.

2 Em poucos dias, dirigentes da coligação populista italiana envolveram-se num concurso de grosseria reacionária, exacerbada com um discurso de ódio dirigido contra os bodes expiatórios do costume. Na sexta-feira, Lorenzo Fontana, ministro da Família e membro da Liga Norte, proclama: "A família natural está a ser atacada. [Os homossexuais] querem dominar-nos e afastar a nossa gente." Em estilo mais berlusconiano, Matteo Salvini, líder daquele partido e novo ministro do Interior, ameaça os imigrantes: "Acabou o recreio, façam as malas e partam."

3 O discurso de ódio contra os imigrantes tem sido, na Europa, nos últimos anos, uma constante na ação política da direita nacionalista. Na Hungria, durante a última campanha eleitoral, o partido de Viktor Orbán ameaçou disparar sobre os imigrantes que tentassem entrar irregularmente no país. Nas campanhas do brexit, no Reino Unido, da Frente Nacional, em França, ou do Partido da Liberdade da Áustria os imigrantes foram apresentados como ameaça à Europa e causa de todos os males da nação. O maior afluxo de refugiados associado à guerra da Síria foi retratado como se de uma invasão se tratasse. A imagem da imigração como ameaça difundiu-se, consolidou-se e sustenta o sucesso progressivo da direita nacionalista e populista.

4 No caso de Itália, mas também no da Grécia, o aproveitamento da questão migratória contou com uma colaboração inesperada: o modo desastroso como as instituições da União Europeia lidaram com a crise dos refugiados. Em vez de anteciparam o problema quando ele já era visível e de criarem mecanismos para o gerir desde o início, foram atuando reativamente. Não montaram postos de acolhimento e seleção junto das zonas de conflito, canalizando o movimento de refugiados desde a origem, em colaboração com os países vizinhos. Pelo contrário, deixaram às redes de contrabando de seres humanos a organização do transporte e entrada, irregular, em território da União. As imagens dramáticas de multidões em fuga a caminho do centro da Europa, muitas vezes em torrente compacta, foram o resultado da ausência de Europa, não de uma invasão inesperada. O problema não é pois a Itália ou a Grécia. O problema é o défice de políticas europeias no domínio das migrações.

5 A insistência burocrática na manutenção de regras inaplicáveis complicou a situação para os países da orla do Mediterrâneo. A política de responsabilização dos países de entrada de migrantes pelo seu acolhimento pode fazer sentido em dias mais calmos, mas não é sustentável em tempos de emergência. A Itália viu-se a braços com um processo de acolhimento de refugiados que devia ter sido partilhado, desde o início, por todos os países da União. A prevalência dos egoísmos nacionais numa conjuntura de crise, exatamente quando o dever de solidariedade entre os Estados membros deveria prevalecer, teve resultados catastróficos para a Itália. A subida da direita populista e xenófoba ao poder vem confirmar isso mesmo. A situação neste país demonstra bem a acumulação de efeitos perversos induzida por uma sequência de decisões absurdas no plano europeu. Cada má decisão reforçou tudo o que de negativo a antecedeu e criou um colete de forças que dificultou ainda mais a reformulação das más políticas que estiveram na origem dos problemas iniciais.

6 Depois do murro do brexit, dos sustos em França e na Alemanha, das derivas consumadas em países como Áustria, Polónia, República Checa e Hungria, a mancha xenófoba que assombra a Europa alastrou agora à Itália. E continuará a alastrar tanto mais quanto menos presente estiver a UE. Quando virá o tempo de reagir? De infletir este caminho? De construir uma política europeia das migrações integrada e baseada nos valores humanistas e de solidariedade que estiveram na origem do processo de integração europeia? É urgente uma política que distribua entre os Estados membros os custos do acolhimento dos refugiados e transforme em oportunidade o que hoje é visto por alguns como um problema. Sem isso, os movimentos xenófobos terão caminho aberto à sua frente para, como num passado não muito distante, tomarem a Europa de assalto.

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