De médico, poeta e criança

... todos temos um pouco.

É um provérbio antigo com várias versões e esta é aquela que primeiro conheci. Esta semana, reencontrei-o online e a propósito de outro assunto, no dia em que a UNESCO oficializou o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Pensei na importância de parte da expressão "todos temos um pouco". Não é que no seu conjunto o provérbio não seja importante ou que não seja verdade. Já todos, pelo menos uma vez na vida, nos diagnosticámos com qualquer coisa (os hipocondríacos reincidem, já se sabe), já toda a gente escreveu um poema (também aí há reincidentes) e cada um de nós já foi também criança, sendo que alguns nunca deixaram de sê-lo. A importância maior do "todos temos um pouco", no entanto, é seu o cariz de partilha. A noção de partilha, quando falamos de questões ligadas à língua, à cultura e à identidade, é incontornável.

Qualquer linguista amador (qualidade a que nem sequer aspiro) repara que a evolução de uma língua é das coisas mais democráticas que há. Há uma norma instituída e que se vai alterando por pequenos contributos e desvios de todos, até à constituição de um novo padrão. É certo que a regra é necessária ao ensino, à uniformidade útil e à etiqueta da vírgula, por exemplo. Mas até o próprio erro é democrático, no sentido em que é algo a que todos temos direito, e já agora, quem é que nunca pregou uma vírgula mal posta?...

Com a língua portuguesa ocorreu algo similar ao longo da sua mundialização. Não seria a mesma sem o contributo de tantos povos e tão diversas culturas e identidades. Por isso, digo que esta oficialização da UNESCO é muito mais do que um motivo de orgulho nacional para o pequeno país que um dia se agigantou pelo mar afora. O Dia Mundial da Língua Portuguesa é para nós um atestado de responsabilidade e um compromisso não só com a universalidade, mas com o respeito pela diversidade. Que nos considerem pioneiros da globalização, com um vastíssimo espaço comercial, é bom. Ótimo, no entanto, é a importância de uma língua e cultura como símbolos do respeito pela diferença.

Uma outra versão do provérbio, que até rima, diz: "De poeta, criança e louco, todos temos um pouco". Gosto de pensar que se refere ao "louco" irreverente e não ao "louco" celerado. Falo da loucura da proposta do CHEGA, de um plano específico de desconfinamento por etnia, numa pandemia. Mas não se aprendeu nada com a insanidade de Hitler e de outros? Que se segue? Guetos? A ciência já demonstrou que o património genético global assenta, como a língua e a cultura, na partilha. Não seríamos o que somos sem o que um dia alguém foi e, por isso, todos temos um pouco uns dos outros. Os portugueses, esses então, têm até um pouco do mundo inteiro.

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