Vietname é aliado da América contra a China

Tirando a Guerra Civil e os conflitos mundiais, a Guerra do Vietname foi aquela em que mais americanos morreram, perto de 60 mil. E, no entanto, Donald Trump sentiu-se em casa durante a estada na semana passada em Hanói, com a capital vietnamita a servir de palco para a nova cimeira entre o presidente americano e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, sobre desnuclearização.

Aliás, foi já a segunda vez que Trump esteve no Vietname, país que também Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama visitaram enquanto presidentes (Lyndon Johnson e Richard Nixon tinham ido lá, mas para ver as tropas que defendiam o Vietname do Sul do Vietname do Norte).

Quando Clinton restabeleceu relações com o Vietname, em 1995, havia alguma expectativa de que a cooperação económica ajudasse a ultrapassar os ressentimentos do conflito terminado duas décadas antes, parte tanto do processo de descolonização como do choque ideológico entre americanos e soviéticos. Na memória dos vietnamitas estava ainda o napalm dos aviões americanos que tentavam evitar a reunificação sob a égide do partido comunista, na dos americanos persistiam as histórias de ferozes vietcongues a atacar jovens soldados, que Hollywood ajudou a reforçar até começar a fazer filmes já sem bons e maus.

Hoje, a cooperação económica não só é bem-sucedida como está a caminhar a passos largos para ser uma parceria estratégica, militar até. Hanói e Washington procuram entender-se para contrariar a ascensão chinesa no Sudeste Asiático, em especial no mar da China do Sul, que Pequim reivindica como seu e por onde transita um terço do comércio marítimo global.

A visita do porta-aviões USS Carl Vinson no ano passado à baía de Danang, no antigo Vietname do Sul, foi uma mensagem clara de que os Estados Unidos apoiam a liberdade de navegação e não reconhecem a soberania chinesa sobre Spratly e Paracels.

A atitude mais colaborante das Filipinas com a China desde que Rodrigo Duterte assumiu a presidência contribuiu também para tornar o Vietname o aliado regional mais fiável para os Estados Unidos na questão do mar da China do Sul. Mas a histórica desconfiança dos vietnamitas em relação à China ajuda e muito.

É incrível até que hoje, quando cai rapidamente no esquecimento essa Guerra do Vietname que durou mais de uma década, a sensibilidade seja ainda muita em relação à Guerra Sino-Vietnamita de 1979 (motivada pela invasão vietnamita do Camboja dos Khmers Vermelhos), que durou escassas semanas e acabou com os chineses a terem de retirar do território ocupado.

Os vietnamitas esperavam agora ficar associados a um acordo entre Trump e Kim que pusesse fim oficial à Guerra da Coreia, outro grande conflito da Guerra Fria e que matou 36 mil americanos. Não se fez história, mas a visita de Trump deixou evidente que uma aliança americano-vietnamita está a ser construída. A grande prova disso foi a reunião de Trump com o presidente Nguyen Phu Trong, à margem da cimeira com Kim, ter sido acompanhada pela assinatura de contratos no valor de 20 mil milhões de dólares, em boa parte aviões da Boeing para as companhias vietnamitas.

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