Trump pode sair da Síria, mas América nunca desistirá do Médio Oriente

Se tivermos em conta o Grande Médio Oriente, faixa que vai de Marrocos até ao Paquistão, é difícil imaginar os Estados Unidos a retirarem-se por completo da região, mesmo levando a sério o anúncio há dias por Trump da saída das tropas americanas da Síria. A relação é tão antiga que Marrocos foi o primeiro país do mundo a reconhecer os Estados Unidos e o hino dos Marines fala de batalhas no início do século XIX contra os piratas da Líbia (on the shores of Tripoli). Isto para não falar da aliança com a Arábia Saudita, nascida da vontade de Roosevelt, do duradouro financiamento militar americano a Israel (o maior de todos, sendo o segundo dado ao Egito) ou da necessidade do Paquistão como base para combater os soviéticos na década de 1980 e agora os talibãs.

É certo que esse Grande Médio Oriente tem sido fonte constante de frustrações para a América, a maior de todas o derrube do regime do Xá em 1979 e a sua substituição por uma república islâmica que tende a ver os Estados Unidos como o Grande Satã. Também a primeira intervenção contra o Iraque de Saddam foi apenas meia vitória, e a segunda, embora derrotando o ditador, praticamente uma vitória de Pirro, basta pensar que o Daesh nasceu de uma aliança entre islamitas e antigos oficiais baasistas. E o Afeganistão, 17 anos depois dos atentados contra as Torres Gémeas, continua um caos, com os talibãs outrora protetores de Bin Laden a ameaçarem destruir o Estado reconstruído por vontade da América.

Disse Trump que ninguém agradece aos Estados Unidos serem o polícia do Médio Oriente, com os custos humanos e financeiros que tal significa, seja no Iraque, seja no Afeganistão (seis biliões de dólares, 7000 militares mortos, somadas as duas guerras de Bush filho).

Na verdade, há quem veja até nos americanos um fator desestabilizador, por estar 100% ao lado de Israel, o que vem de muito antes de Trump ser presidente, ou por agora estar a aplicar pesadas sanções a um Irão que tinha desistido de ser potência nuclear, uma opção trumpiana criticada pelos aliados europeus.

Nisto de responsabilidade de Trump convém também notar que no caso da Síria, em revolta contra o regime de Assad desde 2011, há muito do que se passa agora que tem mais que ver com a crónica indecisão de Barack Obama. Não só o ex-presidente não envolveu tropas no solo como recuou no último momento na decisão de punir Damasco pelo uso de armas químicas em 2013. Foi também incapaz de prevenir a ascensão do Daesh e para o derrotar teve de recorrer às milícias curdas mesmo sabendo como isso afetaria a segurança da Turquia, parceiro na NATO. Foi Obama igualmente que não teve uma estratégia capaz de contrariar a vinda em socorro da Rússia a Assad. Acrescente-se que, pouco depois de tomar posse, Trump mostrou idêntica incapacidade para lidar com o atoleiro sírio, retaliando a mais um incidente com químicos com uma chuva de mísseis Tomahawk sobre a base aérea de Shayrat, uma exibição de força espetacular mas pouco eficaz.

Saída, pois, da Síria e também retirada do grosso das tropas americanas que restam no Afeganistão. A dupla decisão de Trump surpreendeu apesar dos antecedentes (também Obama falou de retirar do Afeganistão) e sobretudo levou à demissão do secretário da Defesa, o general Mattis, que era visto como garante de sanidade na política externa da administração. Sabe-se que Mattis tentou convencer Trump de que é um erro grave abandonar aliados, no caso os curdos, e outro mais grave até é ceder terreno a adversários, ou seja, a Rússia que consegue assim voltar a ser um ator incontornável no Médio Oriente e o Irão, campeão da frente xiita que luta do Iémen ao Líbano.

É evidente que a política externa americana é complexa e que ao mesmo tempo que o presidente anuncia a retirada das tropas da Síria se dá o regresso de um porta-aviões ao golfo Pérsico. Mas mesmo assim é impossível não ver contradição entre um virar de costas puro e simples à Síria e a anunciada vontade de contrariar o expansionismo dos ayatollas de Teerão. Tal como é evidente que a decisão de Trump joga contra Israel, o amigo de sempre. E convém também dizer que se trata de uma decisão que só pode desagradar à Arábia Saudita, o tal país que no tempo de Ibn Saud e Roosevelt se tornou parceiro por causa do petróleo e que Trump fez questão de ser o primeiro visitado por si enquanto presidente dos Estados Unidos. E o Daesh, estará mesmo derrotado?

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