Pior do que os mongóis, pior do que as Cruzadas

O mundo islâmico já entendeu que os jihadistas são o seu pior inimigo. Basta ler a reação dos jornais da Turquia à Indonésia para se perceber que não passa despercebido que o Estado Islâmico não só mata muçulmanos (incluíndo em Paris, mas sobretudo em Ancara, Beirute ou Bagdad) como faz um mal terrível à imagem do islão. O turco Hurryiet noticiou que no sermão lido sexta-feira nas 80 mil mesquitas do país foi dito que essa religião está a ser "alvejada pelo terror global" e que os jihadistas imitam a "violência assassina" de mongóis e cruzados.

Também no Egito o editorial do Al-Ahram fustiga os jihadistas. E chama a atenção que estes saem das fileiras dos muçulmanos e que as suas ideias aludem ao Alcorão, o que obriga "a esmagadora maioria, a que se revolta com o terror, a ter de se explicar". Acrescenta o jornal que é preciso os muçulmanos combaterem o extremismo porque "a mistura de ideias medievais com modernas tecnologias deu ao Estado Islâmico uma rara oportunidade para recrutar".

No Saudi Gazette, um cronista cita uma conversa com a mulher em que esta, revoltada com os atentados em França e também na Arábia Saudita, nota que "esses maníacos não surgem do nada. Eles vêm do meio de nós" e exorta as mães a denunciar os filhos se estes estiverem a ser tentados, pois antes na prisão do que bombistas-suicidas. Dizendo que a mulher tem razão, Khaled Batarfi sublinha que o combate ao terror deve começar em casa, que os muçulmanos têm de ultrapassar as divisões e que os jihadistas merecem ser derrotados de vez. E para isso o escritor defende uma ação sem complexos: "a coligação liderada pela América na Síria e no Iraque anseia por uma operação limpa. Ataques aéreos nunca ganharão a guerra ao terror. É preciso tropas no terreno".

"Cidade das luzes, cidade das trevas (por agora)" é um texto de homenagem da indonésia Julia Suryakusuma à Paris que conheceu quando tinha 20 anos. Veterana feminista, relembrou no Jakarta Post que o terror não atinge só França e que da Turquia ao Paquistão o jihadismo mata milhares de muçulmanos. Diz compreender a decisão de bombardear a Síria, mas duvida que resulte, afinal é como "matar um mosquito com ziliões de outros a zumbir à volta e a nascer".

Cada um destes jornais pertence a um país com agenda própria, desde o Egito dos generais que ignorou a vitória dos Irmãos Muçulmanos até uma Arábia que começou por usar o jihadismo no duelo com o Irão e hoje é alvo, mas é inegável o repúdio da violência em nome do islão. E afirmar que o Estado Islâmico é pior do que as Cruzadas ou os mongóis é fortíssimo. A história das primeiras conhecemos bem, já dos segundos diga-se que em 1258 destruiram Bagdad e mataram o califa.

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