E se o erro foi termos oferecido Bombaim aos ingleses?

Escrevia Boris Johnson no Daily Express em março de 2018, era então ministro dos Negócios Estrangeiros, que desde que o Reino Unido integrou a União Europeia a economia desta cresceu em média apenas 2% ao ano, enquanto a da Commonwealth uns sólidos 4,4%. Uma forma nada diplomática, e outra coisa não seria de esperar, de um dos grandes defensores do Brexit dizer que desde 1973 os britânicos estão a perder tempo e dinheiro por estarem envolvidos com a Europa continental em vez de apostar tudo nos países que em tempos fizeram parte do seu império. O problema é que não é verdade. Aliás, é mentira.

É compreensível esta nostalgia dos britânicos pelo seu império, o tal em que o sol nunca se punha (pelo menos no tempo da rainha Vitória). Nós portugueses percebemo-lo bem, pois não falta quem veja nos laços linguísticos com Brasil e Angola uma oportunidade para sermos menos dependentes da Europa. Aliás, temos forte responsabilidade na forma como se tornaram imperiais: Bombaim fazia parte do dote de Catarina de Bragança ao casar com Carlos II de Inglaterra em 1662 e foi o primeiro pedaço da joia da coroa britânica, essa Índia que só em 1947 se libertaria. Antes, o Império Britânico estendia-se apenas à Irlanda e a umas minicolónias no que é hoje a Costa Leste dos Estados Unidos.

E o que Johnson fez, e outros brexiteiros repetem ainda, foi juntar muita nostalgia com alguns números: Commonwealth conta com 53 países contra os 28 da União Europeia, está espalhada por todos os continentes, abrange 2,4 mil milhões de pessoas em vez de 500 milhões, vale hoje 10% do PIB mundial, e cresce há meio século à média anual de 4,4%, como já vimos. Podem ainda acrescentar, como vantagem do ponto de vista britânico, que a Commonwealth é claramente liderada por eles, dada a chefia simbólica de Isabel II e o facto de serem a mais forte economia.

É uma construção admirável esta da Commonwealth, que em 1949 perdeu o adjetivo britânica. Integra de facto muitas das antigas colónias de língua inglesa e até dois países de outras esferas culturais, como o lusófono Moçambique e o francófono Ruanda. Mas deixa de fora os Estados Unidos, embora os brexiteiros acreditem que se reforçará a relação especial que se viu nas duas guerras mundiais e durante a Guerra Fria. E sim, tem 53 países, mas metade são Estados das Caraíbas e do Pacífico e perante o mais pequeno deles, Vanuatu, o Luxemburgo faz figura de gigante. Quanto ao peso económico, tire-se o PIB e o crescimento indiano e não será assim tão impressionante. Aliás, mesmo a liderança simbólica está em dúvida, não por causa do príncipe Carlos, mas porque este ano a Índia ultrapassará o Reino Unido em termos de riqueza. Além disso, as exportações britânicas para países da Commonwealth equivalem às vendas à Alemanha.

Deixemos bem claro: a Commonwealth não tem culpas do Brexit. Apenas serve para justificar uma escolha de difícil compreensão. E na realidade porquê escolher entre ela e a União Europeia? Boris Johnson deve ter-se esquecido que há quatro décadas que o Reino Unido prosperava como membro de ambas.

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