Nem todas as revoluções ficam bem na fotografia

Aprendemos em 1974 com o cliché dos cravos no cano das espingardas que a fotografia que fica como símbolo de uma revolução também a sintetiza. E o nosso 25 de Abril foi pacífico, obra de soldados cansados da guerra e com vontade de criar um país onde tanto se pudesse beber Coca-Cola como ler Marx. Por isso, temos especial obrigação de estar atentos às imagens que marcam as revoluções árabes. Já deu para se perceber que não há uma Primavera Árabe, mas várias. Nem todas belas de fotografar.

Na Tunísia, sabemos que tudo começou em finais de Dezembro com uma imolação, mas não há foto de Mohammed Bouazizi a pegar fogo, e que a felicidade do povo chegou três semanas depois quando Ben Ali fugiu, mas também ninguém retratou o momento em que o ditador embarcou no avião. Ficam assim para a história os protestos em Tunis, com os jovens a beijar os militares que os protegiam da polícia da ditadura.

No Egipto, podemos esforçar-nos por reter na memória a praça Tahrir cheia de manifestantes, mas, por muito que a multidão tenha feito cair Mubarak, hoje é a fotografia do faraó atrás das grades enquanto é julgado no Cairo que resume o que se passou nos últimos sete meses. Os jornais de meio mundo publicaram-na na primeira página, testemunha do raro episódio de um déspota árabe derrubado pelo seu povo.

Já na Líbia, e enquanto Kadhafi não nos oferecer alguma surpresa, a romântica imagem dos rebeldes montados nas suas pick-up ameaça dar lugar como ícone da guerra civil à foto dos cadáveres de combatentes leais ao regime, mercenários ou não, com as mãos amarradas atrás das costas. A tomada de Tripoli não foi a festa popular que se quis transmitir no primeiro dia, mas sim uma sucessão de combates rua a rua, de ajustes de contas e execuções sumárias de ambos os lados. Se o coronel se aguentou 42 anos no poder, e nos últimos seis meses resistindo tanto aos rebeldes como à NATO, é porque não estava sozinho. E mesmo tendo uma dezena de filhos não era só a família que lhe valia. O sistema e o seu petróleo sustentavam muita gente, que perde tudo agora que o Conselho Nacional de Transição se mudou de Bengazi para Tripoli.

Voltando à Tunísia, é natural que a foto emblema da revolução seja a da festa popular. O regime caiu de podre, vítima da própria sociedade moderna, emancipada e educada que ajudou a criar. Sobre o Egipto, o mínimo que se pode dizer é que julgando Mubarak se poupa muitos dos seus colaboradores de 30 anos. Daí a importância de mostrar o ex-presidente humilhado, consolo para um povo que espera ainda que os militares entreguem o poder aos civis. E, por fim, a Líbia. Uma guerra civil não é o mesmo que uma revolução. Deixa mais traumas e marca bem quem estava de cada lado. Veremos nos próximos dias se o derrube de Kadhafi consegue ficar melhor na fotografia.

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