Jantar cavalo na estepe do Cazaquistão 

Cazaquistão e Mongólia quase se tocam e há mapas que chegam mesmo a enganar, criando com as linhas a ilusão de uma fronteira comum. De qualquer forma, naquela vastidão de vegetação rasteira, a célebre estepe, nada serviu alguma vez de verdadeira fronteira física aos magníficos cavaleiros nómadas que se habituaram a considerar a Eurásia como um mar seu, com a planície da Panónia a ser o limite ocidental, por ali acabar a erva verde-amarelada que serviu de pasto aos cavalos das hordas hunas, magiares e mongóis, as que vieram até mais ocidente.

Cavalos pequenos, tão fortes como ágeis. Assim são descritos nos anais, assim surgem em algumas pinturas, assim são revelados nas escavações arqueológicas. Associamos-los mais aos mongóis, por causa do imenso império que chegaram a criar nos tempos de Genghis Khan, mas não esqueçamos os povos turcos, ou túrquicos, como os cazaques, cuja civilização não é imaginável sem o cavalo. Aliás, aquele que é o nono maior país do mundo (tão grande como 30 portugais) orgulha-se de ter sido no seu território que o cavalo primeiro foi domesticado e hoje até há uma raça chamada cazaque, de enorme resistência e capaz de percorrer grandes distâncias.

Visitei já neste ano o Cazaquistão. Nur Sultan, a capital recheada de arquitetura do século XXI, simboliza a modernidade que a antiga república soviética, independente desde 1991, quer que venha somar-se à tradição nómada, daí a enorme tenda desenhada por Norman Foster. Eu, essa tradição, provei-a numa refeição típica cazaque, um jantar em que foi servido um prato de carne conhecido por beshbarmak. Que carne? Cavalo. Saboroso, asseguraram-me que é mais saudável do que a carne de vaca, que tem muito menos gordura. Provei também leite de égua fermentado, o kumis, um sabor forte, ácido, com fama de fortalecer tanto a alma como o corpo nestas terras de invernos gélidos e verões tórridos.

Percebe-se bem porque os povos nómadas da estepe têm uma ligação fortíssima ao cavalo. Para eles pode ser tudo, até a sobrevivência.

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