Veio do Irão, vale quase ouro e é lindo

Preparei em casa o açafrão comprado em Isfaão tal qual Sépideh, iraniana a viver em Portugal, me explicou: pus uns poucos fios vermelhos no almofariz de latão (feito no Irão, claro!), juntei uns grãos de açúcar para facilitar o esmagamento, e com o pilão bati tudo até ficar em pó. Deitei o açafrão em meia chávena de água a ferver, que ficou amarelada. E verti a mistura sobre arroz branco acabado de fazer. O resultado foi extraordinário: um amarelo dourado lindo, um arroz de sabor exótico.

Paguei dois euros por um grama de açafrão iraniano. O que significa que o quilo rondará os dois mil euros, o que são muitos milhões em rials, garanto. Mas no bazar de Isfaão, Ehsan Ghobadi aceitava euros e dólares, como quase todos os lojistas. Não é à toa que ao longo dos seus 2500 anos a civilização persa (antes e depois de o islão se implantar) se destacou por produzir bons soldados, bons poetas e também bons comerciantes.

Parece caro? Nem pensar. No El Corte Inglès de Lisboa uma embalagem com um grama de açafrão custa 12,6 euros, ou seja, 12 600 euros por quilo. E é açafrão espanhol, que os iranianos me garantiram que não se compara ao seu. É uma rivalidade antiquíssima, pois já nos tempos do Império Romano estes dois países, junto com a Grécia e a Índia, se destacavam como os principais fornecedores de uma especiaria que, além do valor culinário, serve para tingir e para remédios. Terá sido em Creta onde primeiro foi produtivo o açafrão tal como hoje o conhecemos.

O açafrão na realidade são três pequenos estigmas que se retiram de uma flor avermelhada cujo nome científico é Crocus sativus. É de longe a mais cara das especiarias, pois são necessárias 150 mil flores para obter um quilo dele já seco. Para muitos camponeses iranianos é uma fonte de sustento, bem mais benigna do que a papoila que se cultiva no vizinho Afeganistão.

Provei o açafrão iraniano primeiro num jantar em Teerão, no restaurante Zayeb, a dourar o arroz que acompanhava o kebab. Depois também na versão chá ao passar à porta da loja de Ehsan Ghobadi. Atrás do balcão onde grandes jarros em vidro guardam o açafrão, aceitou falar ao jornalista português. Tem um bom inglês e garante mesmo que não é mito que o Irão tenha o melhor açafrão (90% da produção mundial, mesmo que países como a Espanha o importem e depois o vendam como seu). E repete algo que já muitos me tinham dito: fora do país este açafrão vale tanto como ouro. Talvez se aproxime da verdade quando o ouro está em baixa, mas não por estes dias em que um grama custa 35 euros, mas admito que é de ouro um arroz feito em Lisboa e regado com açafrão comprado na antiga Pérsia.

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