Trump na Síria sem plano A

É esmagador o arsenal às ordens de Trump para punir Assad pelo ataque químico de que é acusado contra um bastião rebelde, mas a soma da VI Esquadra no Mediterrâneo com a V Esquadra no golfo Pérsico, mais todos os aviões em bases que se espalham da Turquia aos Emirados não chegam para o presidente americano ter um plano A para a Síria. E esse plano A só poderia ser uma alternativa credível aos atuais governantes de Damasco, desafiados desde 2011, primeiro por protestos de rua, depois por grupos armados com vários patrocinadores externos.

Do tom agora ameaçador de Trump, embora percebendo-se que faz toda a diferença entre Assad e o seu protetor Putin, resultam duas opções, a de atacar posições do exército sírio ou a de lançar uma operação em larga escala que atinja também as forças russas. No fundo, o plano B, o mais provável, e o C, este de riscos impensáveis, basta notar as ameaças de retaliação. Voltemos, pois, ao plano A, cuja inexistência é comprovada pela fraca presença de tropas americanas em território sírio, cerca de dois mil homens. E também por uma clara delegação nas milícias curdas do combate ao Estado Islâmico, que a partir de 2014 se tornou prioritário em relação ao derrube de Assad. Mesmo que Obama seja o principal responsável por esta estratégia de cautela no conflito sírio, o seu sucessor na Casa Branca manteve-a. Aliás, há dias, Trump chegou a anunciar a retirada destes americanos, que sobretudo têm funcionado como conselheiros.

Ou seja, Trump tem meios para complicar a vitória de Assad e prejudicar a estratégia de Putin no Médio Oriente, mas não para moldar uma Síria alternativa, que agrade à América. E corre, atacando, riscos de aumentar tensões com aliados como a Turquia, que já combate as milícias curdas sírias, ou o Iraque, que até tem acordos de defesa com a Síria e o Irão.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.