Trump mais esperto do que Kim, desta vez

Sentado à mesa com Kim Jong-un, figura ainda mais narcisista e imprevisível do que o próprio presidente americano, Donald Trump corria um sério risco: sair da cimeira agendada para 12 de junho em Singapura sem qualquer concessão da parte da Coreia do Norte e tendo, porém, oferecido, só pelo facto de se terem reunido, uma espécie de reconhecimento do estatuto nuclear da bizarra república dinástica de matiz estalinista.

Significa isto que ao cancelar (ou simplesmente adiar?) a cimeira com Kim Trump foi esperto. E, sobretudo, não só não se deixou enredar no habitual jogo norte--coreano de ziguezagues - num dia liberta os americanos presos, no outro um ministro ataca sem medir palavras o vice-presidente Mike Pence - como consegue assim ganhar tempo para pensar, isso sim, numa estratégia para lidar com a nova potência nuclear, a nona no mundo.

No poder desde 2011 e o terceiro da família a liderar a Coreia do Norte em 70 anos, Kim ordenou uma sequência de testes nucleares que completaram o ensaio inicial feito pelo pai em 2006. E somou a isso mísseis balísticos. Para a Coreia do Sul, desde sempre ameaçada pela artilharia convencional estacionada a 50 quilómetros da sua capital, o poderio nuclear da Coreia do Norte pouco mais risco acrescentou, mas já o mesmo não se pode dizer para Japão e EUA. E quando Trump começou a ameaçar Kim com um ataque preventivo, o recém-eleito presidente sul-coreano, Moon Jae-in, velho defensor do diálogo, esforçou-se ainda mais por chegar a entendimento com o regime norte-coreano que preservasse a paz que dura na península desde 1953.

Kim aproveitou a mão estendida de Moon, enviou uma delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno, foi à Coreia do Sul reunir-se com o homólogo e ficou feliz por Trump aceitar também uma cimeira. De repente, toda a gente se pôs a falar de desnuclearização da Península Coreana, ou seja, o fim tanto do programa nuclear de Pyongyang como do guarda-chuva nuclear ainda oferecido a Seul pelos EUA, apesar de em 1991 terem retirado as últimas armas desse tipo.

Mas na realidade, e isso alguém deve ter explicado a Trump no entretanto, Kim desistir do nuclear depois de tanto esforço em obtê-lo não faz sentido. Talvez só se as ajudas financeiras do Sul e americanas chovessem e a China pusesse o Norte sob o seu guarda-chuva de modo a assegurar a Kim de que nunca teria o destino de Saddam e Kadhafi. O mais provável é que depois da cimeira de Singapura se seguisse uma longuíssima negociação, com os norte-coreanos de vez em quando a ceder um pouco (ainda ontem destruíram as instalações de Punggye-ri), mas mantendo a arma nuclear, dissuasora como nenhuma outra.

Veremos agora se Kim se lança em nova escalada verbal contra Trump ou se insiste na ideia de cimeira. Qualquer que seja a reação, Trump para já está a ganhar. No mínimo, ganhou tempo.

Ler mais

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.