Theresa vai e já vai tarde

Ninguém pode negar que a primeira-ministra Theresa May tentou, tentou, tentou. Defensora do remain, o voto a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia, coube-lhe depois gerir o Brexit, a saída sufragada por uma ligeira maioria dos britânicos.

David Cameron, outro conservador a favor do remain, deixou-lhe o pesado legado, demitindo-se depois da derrota no referendo de 2016 que era suposto acabar de vez com as discussões na sociedade britânica, e em especial no partido, entre eurófilos e eurocéticos.

May tentou, tentou, tentou, mas falhou. O Brexit, que deveria ter ocorrido a 29 de março deste ano, continua por concretizar, agora com o último dia de outubro como prazo limite dado pelos 27, os países que permanecerão na União Europeia depois da primeira saída de um membro em 62 anos de história. E falhou por culpa dos irredutíveis do próprio Partido Conservador, que nunca aprovaram o seu acordo para uma rutura negociada. Pior ainda, sem apresentarem alternativas, a não ser o caos de um divórcio selvagem, obviamente mau em todos os sentidos.

Fragilizada por um triunfo escasso nas eleições antecipadas de 2017, May foi sendo sabotada pelos seus deputados. Não só vetaram todo o processo negocial com uma União Europeia curiosamente benevolente com os britânicos, como deixaram sempre claro que a primeira-ministra estava a prazo.

Também nunca veio em socorro de May o Partido Trabalhista. Jeremy Corbyn continua a sonhar ser primeiro-ministro e no seu plano de prioridades não está salvar a líder do partido rival. Acrescente-se que salvaguardar uma boa relação entre o Reino Unido e a União Europeia também não parece merecer grande esforço do dirigente trabalhista. Aliás, tivesse ele feito campanha a sério pelo remain e talvez nada do que hoje está a acontecer teria sido possível.

May vai e já vai tarde. Não que não mereça elogio pela sua coragem, pela vontade de ter resultados mesmo contra tudo e todos. O problema, porém, era já esse: com ela não havia solução possível em nenhum sentido. O que não quer dizer que esteja agora à porta um desfecho finalmente digno para toda a trapalhada do Brexit, uma decisão legítima mas mal pensada.

Quem sucederá a May? Provavelmente um daqueles que lhe fez a vida negra. Boris Johnson é um dos nomes sempre falados. Pelo menos, se for ele o escolhido, liderará um Brexit que foi sempre uma bandeira sua.

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