Tem mesmo de haver Síria?

Império Otomano, protetorado francês, ditaduras várias desde a independência, estas últimas lideradas, quase regra, por figuras das minorias: esta é a história da Síria nos últimos séculos. Ajustes de contas entre comunidades existiram sempre, mesmo quando o país era governado com mão de ferro pelos sultões turcos, mas nada comparável à matança que dura desde 2011, um protesto de rua contra o governo de Bashar al-Assad que se transformou em guerra civil por culpa tanto do regime como dos rebeldes, que desde cedo aceitaram patrocinadores. Mesmo hoje, em que a vitória de Assad parece próxima, potências como Estados Unidos e Rússia insistem em ter uma palavra a dizer no futuro da Síria e dos seus povos, e vizinhos como Turquia, Irão e Israel também.

Embora menos mosaico do que o Líbano, que lhe foi amputado por iniciativa dos franceses já no século XX, a Síria é dos países do Médio Oriente com maior diversidade. Se é verdade que dois terços dos 22 milhões de habitantes (números de 2011, antes dos 400 mil mortos e dos seis milhões de refugiados) são árabes sunitas, a estes somam-se comunidades alauitas (a de Assad), xiitas, drusas, cristãs várias, curdas ou turcomenas. O padrão histórico de convivência, apesar de épocas míticas de tolerância como o califado omíada, tem sido o conflito intermitente, umas vezes por razões religiosas, outras por posse de terras. Basta pensar no choque entre drusos e cristãos no século XIX que se iniciou no Monte Líbano e se estendeu a Damasco. Só impérios ou ditadores laicos conseguiram minimizar os ciclos de vingança e proteger as minorias.

Os partidários de Assad insistem na ideia de uma Síria nas fronteiras pré-guerra, laica. Os rebeldes, tirando os ligados à Al-Qaeda ou ao Estado Islâmico, defendem também uma só Síria, mas livre de Assad. Apenas os curdos, e por isso os receios da Turquia de uma contaminação regional, se mostram tentados a procurar um Estado. E, no entanto, será mesmo possível reconstruir um país depois de tantas violências de uns contra outros, seja com bombas, ataques químicos ou decapitações? Tem mesmo de ser tabu a hipótese de redesenho do mapa do Médio Oriente herdado do final da Primeira Guerra Mundial e imaginado por britânicos e franceses?

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A Europa, da gasolina lusa ao palhaço ucraniano

Estamos assim, perdidos algures entre as urnas eleitorais e o comando da televisão. As urnas estão mortas e o nosso comando não é nenhum. Mas, ao menos, em advogado de Maserati que conduz sindicalistas podíamos não ver matéria de gente rija como cornos. Matéria perigosa, sim. Em Portugal como mais a leste. Segue o relato longínquo para vermos perto.Ontem, defrontaram-se os dois candidatos a presidir a Ucrânia. Não é assunto irrelevante apesar de vivermos no outro extremo da Europa. Afinal, num canto ainda mais a leste daquele país há uma guerra civil meio instigada pelos russos - e hoje sabemos, como não sabíamos ainda há pouco, que as guerras de anteontem podem voltar.

Premium

Marisa Matias

Greta Thunberg

A Antonia estava em Estrasburgo e aproveitou para vir ao Parlamento assistir ao discurso da Greta Thunberg, que para ela é uma heroína. A menina de 7 ou 8 anos emocionou-se quando a Greta se emocionou e não descolou os olhos enquanto ela falava. Quando, no final do discurso, se passou à ronda dos grupos parlamentares, a Antonia perguntou se podia sair. Disse que tinha entendido tudo o que a Greta tinha dito, mas que lhe custava estar ali porque não percebia nada do que diziam as pessoas que estavam agora a falar. Poucos minutos antes de a Antonia ter pedido para sair, eu tinha comentado com a minha colega Jude, com quem a Antonia estava, que me envergonhava a forma como os grupos parlamentares estavam a dirigir-se a Greta.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

O governo continua a enganar os professores

Nesta semana o Parlamento debateu as apreciações ao decreto-lei apresentado pelo governo, relativamente à contagem do tempo de carreira dos professores. Se não é novidade para este governo a contestação social, também não é o tema da contagem do tempo de carreira dos professores, que se tem vindo a tornar um dos mais flagrantes casos de incompetência política deste executivo, com o ministro Tiago Brandão Rodrigues à cabeça.