Tão português que é afinal este Uruguai

Descobri o Uruguai através de Colónia de Sacramento, como tantos europeus que visitam Buenos Aires e não perdem a oportunidade de dar um pulo à outra margem do rio da Prata e acrescentar um segundo país à Argentina. Claro que sabia que a cidade tinha sido fundada por Manuel Lobo em 1680, quando o império português se esticava o máximo para sul à custa do espanhol. E essa memória de Portugal não só é mantida como muito acarinhada.

Mas os laços com o Uruguai são surpreendentemente mais vastos, como me explicou um dia a embaixadora Brigida Scaffo, contando que foram famílias açorianas que fundaram San Carlos no século XVIII. É verdade que não se sabe se eram voluntárias ou trazidas à força por Pedro de Cevallos, o vice-rei espanhol que tudo fez para expulsar Portugal daquelas paragens, conquistando até Colónia, mas serve bem para ilustrar o quão complicado foi o definir de fronteiras por aquelas bandas.

E as Guerras Napoleónicas, com D. João a transferir a capital para o Rio de Janeiro, ainda ajudaram mais à confusão. O pequeno Uruguai, liderado pelo republicano Artigas em revolta contra Espanha , acabou por ser integrado pela força das armas no império português meia dúzia de anos e foi depois uma efémera província do Brasil. Hoje, estes episódios a envolver quem falava português ajudam a singularizar o pequeno país por oposição à também hispanófona Argentina, à qual disputa, sem grandes hipóteses, ser a pátria de Gardel, mas reivindicando com toda a autoridade La Cumparsita, o tango dos tangos.

Pequeno e de respeito, pois, este Uruguai. Seja pelo desenvolvimento, por isso lhe chamam Suíça da América do Sul, seja por figuras admiráveis como Pepe Mujica. E também, diga-se, pelo futebol. Tinha dois milhões de habitantes quando foi campeão do mundo pela segunda vez, hoje tem três milhões e a verdade é que países com título igual só colossos como Brasil, Argentina, Espanha, França, Itália, Inglaterra ou Alemanha.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.