Russos e sauditas: sócios no petróleo inimigos na Síria

Quem visse o ministro russo do Petróleo a encontrar-se ontem em Doha com o homólogo saudita teria dificuldade em imaginar que na guerra na Síria os respetivos países não só apoiam campos rivais como estão à beira de se tornar inimigos. Na capital do Qatar estava em discussão o único tema em que russos e sauditas concordam: a urgência de travar a queda do preço do petróleo, que se no verão de 2014 andava acima dos cem dólares é agora vendido a 32.

Não membro da OPEP, o cartel dos exportadores, a Rússia surge como o segundo produtor mundial, mas com receitas tão insuficientes que o ano passado foi de recessão. Já a Arábia Saudita, líder da OPEP, viu o PIB em 2015 crescer mas à custa de um recurso sistemático às reservas de divisas, com o défice orçamental a rondar os 15%.

Ora, nem Moscovo (em especial) nem Riade podem suportar muito tempo o impacto dos baixos preços do crude, pelo que tentam pôr-se de acordo para não inundar mais o mercado. Na reunião de Doha estiveram representantes do Qatar, país anfitrião, e da Venezuela, que também concordam com limitações, mas sabe-se que outros membros da OPEP, como o Irão, preferem vender mais, até ao desbarato.

Entretanto, os aviões russos apoiam o avanço do exército sírio sobre Aleppo, onde se concentram os rebeldes apoiados pela Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, no reino dos Saud um megaexercício militar junta vários países sunitas, de Marrocos ao Paquistão. Batizado de Trovão do Norte, tem como objetivo mostrar que os sauditas não se dão por vencidos na Síria pelo arco xiita pró-Irão suportado pela Rússia.

Mas cofres vazios e tambores de guerra são uma má combinação. Talvez o baixo preço do petróleo refreie russos e sauditas na Síria. Nem que seja por as ambições serem maiores do que os meios.

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