Era português o melhor soldado de George Washington

Gosto de imaginar que nos minutos em que estiveram a sós, Trump agradeceu ao presidente Marcelo por Portugal ter dado à América Pedro Francisco, ou Peter Francisco, que é como a figura aparece nos livros de história do outro lado do Atlântico.

Hoje sabe-se que o "Hércules da Virgínia", elogiado por George Washington como o melhor dos soldados da Guerra da Independência, era um português, descoberto miúdo nas docas de City Point, atual Hopewell, a falar uma língua estranha. Terá sido raptado dos Açores e acabado na América, e foi o juiz que o acolheu que percebeu que era em português que a criança de cinco ou seis anos balbuciava.

Ferreiro de profissão, Pedro Francisco somou músculos aos dois metros que tinha e quando aos 16 anos se alistou pelos rebeldes contra a coroa britânica depressa se destacou como combatente. Ajudou o português sem dúvida ao triunfo da independência, essa cuja declaração a 4 de Julho de 1776 foi brindada com vinho Madeira, como, oportuno, Marcelo relembrou a Trump.

Velha ligação pois a nossa aos Estados Unidos, tão antiga que até tivemos navegadores a descobrir a Califórnia ou a cartografar a Costa Leste ainda nos primórdios da colonização europeia. Ligação que resultou até hoje numa sólida aliança, mas que não significa que Portugal não procure no mundo outros parceiros, como o provam o recente encontro de Marcelo com o russo Putin e a anunciada visita do chinês Xi até final do ano.

Somos pois pequenos como país, nenhuns Hércules, mas às vezes capazes de produzir campeões do tipo de Pedro Francisco ou, como salientou Marcelo, de Cristiano Ronaldo, o tal melhor do mundo nascido na mesma ilha portuguesa que produz o tal vinho preferido dos pais fundadores da América.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

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