O almirante que ganhou todas as batalhas

Ninguém se iguala em feitos militares a Yi Sun-sin. Nem no mar nem em terra. O almirante coreano travou 23 batalhas e ganhou-as todas. Por comparação, Genghis Khan é talvez quem mais se aproxime, com 18 vitórias e duas derrotas. E Napoleão ganhou 19 batalhas e perdeu quatro, isto segundo a pequena biografia em inglês à venda em Seul que tenta dar a conhecer aos estrangeiros o herói nacional que no século XVI impediu a invasão japonesa.

Tenho de admitir que desconhecia Yi Sun-sin até visitar Seul pela primeira vez em 2014, para uma conferência sobre jornalismo. Mas é impossível ficar indiferente à magnífica estátua que surge na fotografia que acompanha esta crónica. Li então sobre como o almirante derrotou os japoneses na chamada Guerra Imjin, que durou de 1592 a 1598. E até descobri no YouTube o filme The Admiral, que conta a batalha de Myongnyang, em que com 13 navios a armada coreana derrotou a frota de 300 barcos ou mais do inimigo. Ontem só encontrei o trailer.

Na tal biografia que comprei agora, numas férias familiares na Coreia do Sul, conta-se que em 1905, depois de a marinha japonesa ter derrotado a russa, alguém elogiou o almirante Togo comparando-o a Nelson, o vencedor de Trafalgar. Mas Togo corrigiu o admirador, dizendo que aquele com quem queria ser equiparado era Yi Sun-sin. Conhecendo-se as relações históricas complicadas entre coreanos e japoneses, acentuadas com a colonização da península entre 1910 e 1945, é certo, é notável o dito de Togo.

Os coreanos orgulham-se de Yi Sun-sin por ter combatido sempre para defender a pátria, nunca numa ação de conquista - isso também o distingue de outros grandes militares, a começar por Genghis Khan e Napoleão. Veneram-no ainda pelo sentido de honra, pois, mesmo quando um almirante rival e um agente duplo japonês o fizeram cair em desgraça, nunca deixou de ser leal ao rei. Isto apesar de ter sido preso e depois rebaixado a soldado.

Tive oportunidade agora de ver também uma réplica dos famosos barcos-tartaruga, o primeiro navio couraçado da história. Construída na escala de 1:2,5 e exposto no Memorial da Guerra, permite perceber o génio de Yi Sun-sin, não apenas grande estrategista como engenheiro. É de sublinhar que a isso aliava um conhecimento do Litoral coreano que se revelou decisivo em Myongnyang, travada depois da queda em desgraça. Morreria, já reabilitado, na decisiva batalha de Noryang.

Herói a sul do Paralelo 38, sem dúvida. E a norte? Pelo que percebi, o regime comunista a partir de certa altura tentou desvalorizar os feitos do almirante, analisando a Guerra Imjin em termos de luta de classes. Mas os manuais de história continuam, mesmo na Coreia do Norte, a destacar o génio de Yi Sun-sin. É preciso não esquecer que a divisão, profunda, é verdade, data apenas de 1945 e continua a haver um só povo coreano.