E se falássemos de Israel aos 70 anos

Vi há um ano lágrimas nos olhos de judeus americanos quando lhes contavam como ali, na Avenida Rothschild, em Telavive, David Ben Gurion aproveitou o último dia do mandato britânico sobre a Palestina para proclamar o Estado de Israel. Foi há 70 anos, nesse 14 de maio de 1948 que não chegou a ser de festa, porque os exércitos árabes invadiram o novo país. Ben Gurion sabia bem dos riscos que corria, e o edifício onde foi feita a proclamação foi escolhido para manter a discrição enquanto os dirigentes sionistas discutiam como agir: era um museu, com paredes altas para pendurar os quadros e quase sem janelas.

Hoje, o chamado Independence Hall reproduz o ambiente da reunião. É suposto estar igual e por isso emocionou tanto aqueles americanos, alguns sobreviventes do Holocausto. Mas Israel, esse, mudou e muito. Já não é o país frágil criado por kibbutzim vindos da Europa, mas sim um Estado poderoso, com um exército que acumula vitórias. O David que resistiu a egípcios, sírios, iraquianos e jordanos é hoje um Golias, respeitado pela pujança da sua democracia, mas criticado por manter os palestinianos sem um Estado.

Em janeiro de 2003, numa das minhas reportagens em Israel, estive em Belém, cidade da Cisjordânia sob controlo da Autoridade Palestiniana desde os Acordos de Oslo de 1993. Era a época da Segunda Intifada, mais uma das revoltas dos palestinianos, e com todas as medidas militares aplicadas os turistas tinham desaparecido, as lojas que vendem sagradas famílias de madeira de oliveira estavam fechadas e o sentimento nas ruas era de frustração. Recordo-me de o presidente da câmara, um palestiniano cristão, me ter dito que tudo na vida ali dependia dos caprichos de Israel. Que os palestinianos não seriam livres enquanto não tivessem o seu país.

Os países árabes recusaram o plano de partição da Palestina desenhado pela ONU em 1947. Consideraram inadmissível que metade do território fosse atribuído aos judeus, então um terço da população. Reconhecido pelos Estados Unidos e pela União Soviética (como noticiou o DN a 14 e 15 de maio de 1948) e armado pela Checoslováquia, Israel não só venceu a guerra, como avançou até às portas da Cidade Velha de Jerusalém. Derrotados, os exércitos árabes retiraram, com o Egito a assumir só o controlo de Gaza e a Jordânia o da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, onde se situa o Muro das Lamentações, o mais sagrado dos lugares para o judaísmo, mas também a Igreja do Santo Sepulcro e a Mesquita de Al-Aqsa. Considerando esse momento uma "catástrofe", nabka em árabe, os palestinianos de 1948 acabaram por ter vários destinos, uma parte tornando-se cidadãos de Israel, outra ficando em Gaza e na Cisjordânia, outros ainda refugiando-se na região, onde só a Jordânia lhes concedeu direitos.

Estado Judaico, Israel teve, pois, de integrar logo ao nascer milhares de árabes de religião muçulmana, cristã e drusa. Hoje essa minoria representa um quinto dos oito milhões de israelitas. Após a conquista da Cisjordânia e de Gaza em 1967, depois de nova guerra com os vizinhos árabes, a questão da anexação e da integração já não se colocou (tirando Jerusalém), pois poria em causa a maioria demográfica, logo todo o ideal sionista inspirado no livro O Estado Judeu, de Theodor Herzl.

O sonho de os judeus voltarem a ter uma pátria durava desde a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos e fora alimentado por esforços ocasionais como o da judia portuguesa Gracia Nasi no século XVI. Mas o moderno Israel resulta da convicção dos judeus europeus do século XIX de que continuariam a ser discriminados. Financiados por banqueiros como Lord Rothschild e apoiados por políticos como Lord Balfour, os sionistas mostraram determinação na defesa do seu projeto, exemplificada pela recuperação do hebreu como língua nacional, e depois da perseguição nazi sentiram que a história lhes dava razão.

Dono da arma nuclear (ainda que não o admita), o Israel de hoje é um país capaz de se defender sozinho, mesmo que conte com a América, fornecedora de ajuda militar, protetora na ONU e principal parceiro económico. Continua, porém, num ambiente regional hostil, mesmo que tenha relações oficiais com Egito e Jordânia e uma crescente coincidência de interesses com países como a Arábia Saudita. A maior ameaça parece vir do Irão, país que até tem uma comunidade judaica mas abomina o sionismo. E tanto no Líbano, via Hezbollah, como na Síria, onde apoiam o regime, os iranianos contam com meios de exercer pressão sobre Israel, sempre a pretexto de defender os palestinianos.

Ora, voltemos à celebração desta segunda-feira, natural num país que gosta de ser chamado de "nação startup". Um balanço destes 70 anos de Israel tem sempre de ter em conta o outro lado da tal partição falhada de 1947. Duas certezas existem: nem os judeus vão ser empurrados para o mar e expulsos pois aquela é a sua terra nem os palestinianos podem viver indefinidamente sem um país naquela que é também a sua terra. A solução dos dois Estados, como prevista em Oslo e até premiada com nóbeis, mantém-se a mais realista, por muito que me agrade relembrar como vi em Jaffa, vila colada a Telavive, noivos judeus a serem felicitados por jovens árabes, bela alternativa à narrativa de atentados e de snipers.

O regresso de israelitas e palestinianos à mesa das negociações exige vontade mínima de dialogar de uma parte e outra, o que duvido que exista. Benjamin Netanyahu está demasiado preocupado com os tentáculos do xiismo para considerar prioridade uma Cisjordânia e uma Gaza (bastante menos, como se tem visto) em relativa acalmia. E sabe que qualquer decisão sobre o futuro dos colonatos assim como o estatuto final de Jerusalém pode dividir perigosamente a sociedade israelita, muito plural, mesmo entre a maioria judaica (há até ultraortodoxos que só querem um Israel bíblico). Já os palestinianos nem sequer conseguem chegar a um entendimento sobre a sua liderança, com a velha OLP a controlar a Cisjordânia e o Hamas a ser senhor de Gaza, onde as condições de vida são horríveis. E se os herdeiros de Yasser Arafat reconhecem Israel, já os islamitas persistem sem aceitar o Estado Judaico, nem sequer nas fronteiras de 1967. E nenhuma das fações palestinianas ousa renunciar ao direito dos refugiados ao regresso, mesmo sendo evidente que Israel nunca cederá e que a solução passa por apoio financeiro, pela regularização dos descendentes nos países árabes e por uma emigração parcial para o Ocidente.

Recordo-me de um jantar em Telavive com o filho do falecido presidente Shimon Peres, um dos nóbeis por causa de Oslo. Além de empresário, Chemi Peres lidera a fundação que o seu pai criou para promover a paz. Conhecedor do que poderiam fazer juntos israelitas e palestinianos se fossem capazes de se entender, lamentava que hoje seja "pouca a vontade de mudar algo no Médio Oriente. Todos estão à espera".

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