Presidente italiano sem medo dos populistas

Foi quando o irmão Piersanti, presidente do governo da Sicília, foi morto pela máfia que Sergio Mattarella entrou na política. A informação serve para mostrar o óbvio: o atual presidente italiano é um homem de coragem, tão corajoso que ontem barrou o caminho a Giuseppe Conte, primeiro-ministro indigitado pela aliança entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas.

Não agradou a Mattarella que o futuro ministro da Economia fosse um eurocético e Conte não deu sinais de querer procurar alternativa, pelo que a rutura se consumou e agora o provável é o presidente nomear um governo técnico que, na impossibilidade de ser aprovado no Parlamento, conduzirá o país só até às novas eleições.

À frente da Liga, partido que desde que deixou de ser do Norte é cada vez mais xenófobo, Matteo Salvini mostra-se entusiasmado com a perspetiva de regresso às urnas, ambicionando reforçar a sua liderança no campo da direita, quem sabe mesmo até competir com o parceiro de circunstância, esse 5 Estrelas que ideologicamente só é definível como antissistema mas que ganhou em março.

Mas não foi a Paolo Savona, economista e antigo ministro a Indústria, ou a Conte, jurista de currículo duvidoso, que Mattarella disse não. Foi sim a um governo populista no pior dos sentidos, pois previa cortes nos impostos na ordem dos 20 mil milhões de euros e um aumento da despesa do Estado em 80 mil milhões, criando um buraco orçamental de 100 mil milhões que os economistas sérios não veem como pode ajudar a Itália, oitava economia mundial e o país da Fiat e da Generali, a voltar a crescer que se veja (na última década fez pior do que Portugal).

Percebe-se que os italianos estejam zangados com a classe política, seja o velho Silvio Berlusconi ou o jovem Matteo Renzi, mas a coragem de Mattarella, saindo em defesa do projeto europeu, da confiança dos investidores e das poupanças dos cidadãos, deveria servir de exemplo de resistência perante os novos cantos de sereia.

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