Guerra China-Taiwan terá dois derrotados

Da segunda vez que visitei Taiwan, em 2017, um ex-ministro contou-me um dito politicamente incorreto: "Sabe qual o lugar mais seguro se a China atacar? O Museu do Palácio Nacional."

Recordei-me deste episódio depois do discurso de Xi Jinping sobre a reunificação chinesa, à qual, depois da devolução de Hong Kong e de Macau, só falta Taiwan, a ilha onde se refugiaram os nacionalistas do Kuomintang em 1949 depois de perderem a guerra civil. Na hora da retirada, Chiang Kai-shek, o rival do comunista Mao Tsé-tung, não deixou de levar os tesouros da Cidade Proibida.

Não tenho dúvidas de que Xi, presidente da República Popular da China (RPC), sonha ser ele a completar a reunificação. Hong Kong e Macau foram negociadas com britânicos e portugueses por Deng Xiaoping, agora Xi quer resolver a província rebelde, formalmente chamada ainda de República da China (RC).

E imagino que Xi adoraria visitar o Museu do Palácio Nacional em Taipé, onde estão peças como a Couve de Jade ou a pintura da dinastia Tang que mostra mulheres à conversa. Não há dúvidas de que esses tesouros pertencem ao povo chinês, que vive nos dois lados do estreito de Taiwan.

Como disse, estive duas vezes na ilha. Em 2012, os governantes de Pequim e Taipé davam passos no sentido da aproximação, mas sem abordar a questão política. E em 2016, antes mesmo de deixar a presidência taiwanesa, Ma Ying-jeou encontrou-se com Xi, este na qualidade de líder do Partido Comunista, ele do Kuomintang.

Contudo, Taiwan é hoje uma democracia e escolheu para suceder a Ma a presidente Tsai Ing-wen, de um partido com tentações de declarar a independência da ilha. Sempre com a ameaça da força presente, Xi mostrou a Tsai que renunciar ao consenso de que há uma só China é proibido e arrancou quatro aliados diplomáticos a Taiwan, que já conta com apenas 17, mesmo que na verdade o que valha muito é a promessa americana de defesa feita em 1979 quando Jimmy Carter reconheceu a RPC em detrimento da RC.

Nas recentes eleições locais em Taiwan, o Kuomintang ganhou, fruto das pressões chinesas e também da má gestão de Tsai. Talvez os nacionalistas vençam as presidenciais em 2020 e então o diálogo com Xi seja construtivo, voltando-se à ideia de um país, dois sistemas, de que Hong Kong é o grande teste. Mas há três certezas a ter em conta: só há uma China e o statu quo atual não é eternizável; o sucesso da reunificação chinesa só será verdadeiro se os taiwaneses a desejarem; uma guerra seria desastrosa, pois ninguém quer ver o Museu do Palácio Nacional a tornar-se um refúgio.

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