Esta não é guerra para Trump querer

Missão cumprida, disse ontem Trump poucas horas depois de uma chuva de mísseis americanos e não só ter caído sobre a Síria. É uma frase com antecedentes perigosos quando dita por um presidente americano, basta recordar que Bush filho a pronunciou em maio de 2003, menos de dois meses depois do início da intervenção no Iraque, e porém mais de uma década depois ainda um grupo jihadista como o Daesh era capaz de conquistar Mossul, terceira maior cidade do país, obrigando os Estados Unidos a fazer nova guerra.

Contudo, não se responsabilize Trump pela estratégia errática dos Estados Unidos em relação à Síria, à vista de todos e com proveito evidente para Assad. Mesmo tendo agora ordenado a destruição de três instalações ligadas à produção de armas químicas, e com uma dose de força dupla de um outro ataque semelhante em abril do ano passado, o presidente americano não tem grande interesse em tornar sua uma guerra que Obama nunca quis assumir. Aliás, influenciado por ter herdado de Bush filho as guerras inacabadas no Iraque e no Afeganistão, Obama desde 2011 sempre hesitou no que fazer em relação à Síria, a ponto de ter falhado até na sua promessa de fazer do uso de armas químicas a linha vermelha e de, ultrapassado pelos acontecimentos, ter sido forçado também a dar prioridade à derrota do Daesh em detrimento da construção de uma alternativa a Assad.

Hoje, mesmo depois da destruição causada pelos mísseis disparados pelos americanos com apoio dos britânicos e dos franceses, a vitória de Assad continua a ser o cenário quase certo de sete anos de guerra civil. Beneficiou o presidente sírio de ter tido a mais eficaz das ajudas externas, graças a essa complexa aliança da Rússia com o Irão, o Hezbollah e ainda milícias xiitas várias, vindas de tão longe como o Afeganistão. Igualmente favoreceu Assad a emergência do jihadismo internacional como a mais forte corrente dos rebeldes, ajudando-o assim a vender à opinião pública mundial a ideia de ser o menor dos males, como, aliás, já o viam as minorias étnicas e religiosas que constituem um terço dos sírios (eram ao todo 22 milhões em 2011, antes de 400 mil mortos e seis milhões de refugiados).

Sem um plano A para a Síria, Trump optou por não exagerar na punição a Assad pela mais recente ofensiva contra os últimos bastiões rebeldes. Foi um pragmático plano B, com a reação russa a ser dura a nível da retórica, mas sem a dimensão imponderável que assumiria se a América tivesse atacado em força, o temível plano C sempre à disposição do líder da mais forte das potências militares. Não esquecer que, embora com fama de isolacionista, Trump reforçou o orçamento de Defesa, confia no general Mattis mais do que em ninguém na sua administração e já mostrou gostar de falar forte e ameaçar com bombas seja os talibãs seja Kim.

Costuma ser dito que cada presidente americano tem uma guerra, ou até duas como Bush filho, mas esse tem a desculpa do 11 de Setembro e o peso de completar o trabalho do pai contra o Iraque de Saddam. Não é certo que Trump tenha escolhido a Síria para que seja a sua. Mas esperemos pelo que acontecerá nos próximos dias.

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Ricardo Paes Mamede

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