Da Baja California à Terra do Fogo

Sei que basta o Brasil para comprovar como a América Latina faz parte da história de Portugal, mas nem o gigantismo do país lusófono chega para abarcar uma relação que na realidade se estende da Baja California à Terra do Fogo. É só relembrar que os navegadores que primeiro chegaram a ambas foram João Rodrigues Cabrilho e Fernão de Magalhães, ainda que ao serviço de Espanha.

Sei que vivemos no século XXI, tempo de negócios modernos, mas sei também que mesmo em 2018 se comercia e se investe com mais eficácia quando existem afinidades antigas, seja por características culturais comuns, seja por memórias partilhadas, seja por proximidade linguística. País pequeno, de recursos limitados, mal estaria Portugal se não soubesse tirar hoje vantagem de uma história que é, de facto, grande.

E essa história liga-nos muito à América Latina, como à África, como igualmente à Ásia. Um dia um conceituado historiador, com sentido das proporções mas também com rigor científico, alertou-me para esquecer Alexandre, Júlio César ou Genghis Khan, pois o primeiro soberano a ter exércitos nos quatro continentes foi D. Manuel I. Que logo deram azo a uma miscigenação que foi a verdadeira chave do nosso sucesso.

Faz então, nesta era de globalização, todo o sentido quando se fala de Portugal no centro da construção de parcerias estratégicas, como a América Latina-Europa-África que o IPDAL debate hoje e amanhã em conferência em Lisboa com a ajuda de personalidades dos três continentes envolvidos. É óbvio que o nosso papel enquanto país tem de refletir os tempos, mas também é óbvio que a vocação de construtores de pontes vem de trás. E estarmos na União Europeia reforça-nos perante latino-americanos e africanos, tal como as ligações à América Latina e a África nos garantem relevo no contexto dos 28. Há que aproveitar.

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Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.