Contei à minha filha que os nossos impostos salvaram mestre Gregório

Foi o Estado, fomos todos nós, que salvámos os sete pescadores do barco atuneiro "Sete Mares" que naufragou ao largo da Madeira. O avião da FAP que os avistou e a lancha NRP Hidra que, apoiada pelo navio-patrulha NRP Tejo, os resgatou sábado foram os protagonistas, e as duas tripulações os heróis do dia, mas o essencial é que o salvamento não foi fortuito, mas sim resultado de um esforço coletivo do qual todos nos devemos orgulhar.

A balsa com os sete homens estava há três dias à deriva, mas eles sabiam que não estavam sozinhos: não falo das famílias, em desespero, nem dos amigos, cuja ajuda pode ser útil mas não chega; falo dos meios de salvamento que o Estado português, como todos os Estados dignos desse nome, mantêm em permanência para acudir a situações extremas, seja um salvamento no mar madeirense, o transporte urgente de uma grávida entre ilhas açorianas, o combate aos fogos nas Beiras ou no Ribatejo.

Quando nos questionarmos para que pagamos impostos, lembremo-nos deste episódio do atuneiro "Sete Mares"; quando nos questionarmos para que servem as Forças Armadas, lembremo-nos dos sete pescadores que gritaram de alívio e alegria quando foram sobrevoados pelo C-295 da FAP, e até há um vídeo a mostrar esse momento. "Não nos largou até chegarem os barcos", declarou, já no Funchal, mestre Gregório.

FAP é Força Aérea Portuguesa, NRP é Navio da República Portuguesa e são siglas poderosas. Percebem porque fomos nós, os portugueses, que salvámos mestre Gregório e companheiros? E que o teríamos feitos por estrangeiros também nos nossos mares como esperamos que os aviões e barcos de outros países nos salvem se um dia o naufrágio for longe?

A minha filha Mariana fez nove anos no dia deste resgate. Contei-lhe esta história de náufragos com final feliz e relembrei-lhe como, quando aprendia a nadar, lhe ensinei sempre que se um dia caíssemos ao mar o segredo era flutuar o máximo de tempo e esperar que nos viessem salvar. De certeza alguém nos estaria a tentar salvar, alguém nos viria salvar, talvez o NRP Hidra.