Tanto que o Papa deve às nossas caravelas

Leonídio Paulo Ferreira

Nisto de contas da Igreja, e fé ou não à parte, sempre me pareceu que Portugal recebia pouco pelo muito que deu ao catolicismo, sobretudo à boleia das caravelas. De um lado, pouco mais de uma dezena de santos, meros dois cardeais em simultâneo a maior parte do tempo, um só Papa em 900 anos. Do outro, um primeiro rei a tudo fazer para oferecer território à cristandade, um século XIII brilhante com João XXI, Santo António e frei Lourenço de Portugal (embaixador papal ao Grão-Mongol), depois do século XV uma missionação que resultou no Brasil, o país com mais católicos no mundo, e também em Timor, o país asiático com maior percentagem de católicos, já para não falar nessa Índia onde a maioria dos 30 milhões de cristãos não tem apelido nem deixado pelos britânicos anglicanos nem herdado dos ortodoxos sírios que viviam na costa do Malabar antes de Vasco da Gama lá chegar; chamam-se, isso sim, Fernandes, Noronha, De Souza ou Dias (mesmo que pronunciem Dáias, como um dia ouvi em Bombaim).

Mas Francisco está a corrigir essa injustiça. Nomeou D. António Marto para cardeal, juntando-se aos outros portugueses para um excecional quarteto. E, por o bispo de Leiria-Fátima (sim, Fátima) ter menos de 80 anos, Portugal continuará a ter dois representantes no conclave que elegerá o próximo Papa, uma representação digna para um país de dez milhões quando o Brasil tem cinco e a Espanha também.

Argentino, desse Novo Mundo criado pelas caravelas, Francisco é jesuíta, e sabe bem como a Companhia de Jesus e Portugal, aliados desde a primeira hora (com Inácio de Loyola, Francisco Xavier e Simão Rodrigues), souberam criar novos mundos católicos da Amazónia a Nagasáqui. Numa época em que a Igreja se assume como global, quer na nomeação de cardeais (ontem foram sete não europeus em 14) quer na busca de um entendimento com a China, faz sentido reforçar os portugueses na sua máquina.