Coreias: muito simbolismo, ainda maior incerteza

Leonídio Paulo Ferreira

Kim Jong-un ultrapassou a linha de fronteira e entrou na Coreia do Sul, apertou a mão a Moon Jae-in, sorriram ambos para os fotógrafos, e depois, inesperadamente, o líder norte-coreano convidou o homólogo do Sul a dar um passo para trás e entrar também na Coreia do Norte. Novo aperto de mão e mais uma avalanche de flashes, antes de seguirem para a Casa da Paz, o local da cimeira, no lado sul-coreano da DMZ, a zona desmilitarizada e altamente minada que separa os dois países desde o final da guerra de 1950-1953.

Portanto, de simbolismo estamos bem servidos, nós o resto do mundo e sobretudo os coreanos, 50 milhões no Sul e 25 no Norte. Mas se qualquer diálogo é bem-vindo para minimizar a hipótese de novo conflito na península, continuam a ser muitas as dúvidas sobre as reais intenções de Kim. Terceiro de uma dinastia comunista cada vez mais isolada (resta-lhe a China como aliada, e reticente), o jovem Kim sabe que precisa da ajuda do riquíssimo Sul para desenvolver a economia do Norte e garantir alguma prosperidade ao seu povo. Mas tem consciência também de que é o poder nuclear recentemente obtido que lhe dá estatuto internacional (ainda que negativo) e o protege de uma intervenção militar dos Estados Unidos, velho inimigo ainda do tempo da Guerra Fria, quando o Sul contava com o apoio americano e o Norte com o da União Soviética. Não quer imitar o destino de Saddam Hussein ou Muammar Khadafi.

Terceira entre líderes coreanos, esta cimeira ainda a decorrer serve também de etapa para uma outra entre Kim e Donald Trump, essa sim inédita e com data e local ainda a definir. De um lado e outro estarão personalidades altamente narcisistas, que agora trocam elogios mas já se insultaram muito no passado. Aí sim se verá até que ponto poderão ir as cedências norte-coreanas na questão nuclear, dependendo muito das garantias americanas. De fora, estarão a Coreia do Sul, na expectativa, e a China e o Japão (que tradicionalmente se sente ameaçado pela Coreia do Norte) muito preocupados com o resultado, ainda que por razões distintas.