Ainda bem que Michelle não teve medo

Estive no Lorraine Motel em novembro de 2000, era o edifício onde foi assassinado Martin Luther King já um museu dedicado aos direitos cívicos, ou seja, um monumento à luta dos negros para alcançar a plena cidadania nos Estados Unidos. Estava ali em Memphis como repórter do DN, a relatar como a América via o duelo entre Al Gore e George W. Bush, os candidatos presidenciais dos dois grandes partidos. Mas o meu interesse pelo museu era também pessoal, pois tinha marcada para dentro de semanas em Lisboa a defesa de uma tese de mestrado que lidava com a história negra nos Estados Unidos. E se não é possível falar dessa história sem invocar os primeiros escravos chegados a Jamestown em 1619, a criação da Libéria ou o impacte da Guerra Civil, também é incontornável abordar a figura do reverendo batista morto em 1968.

"Colin Powell vs. Louis Farrakhan - dois modelos antagónicos para a comunidade afro-americana" foi o título da tese, academicamente adequado mas pomposo do ponto de vista jornalístico. A escolha de Powell e de Farrakhan surgiu porque no DN tive de escrever em menos de um mês, em finais de 1995, sobre ambas as figuras: o primeiro, antigo chefe das forças armadas, era falado como candidato republicano e com hipóteses de impedir a reeleição de Bill Clinton; o segundo, líder dessa Nação do Islão à qual pertenceu Malcolm X, conseguira reunir em Washington um milhão de homens negros num protesto contra a discriminação racial inspirado, mas com conteúdo radicalizado, na célebre marcha de 1963 em que Luther King fez o discurso "Eu tenho um sonho".

Nas conclusões, afirmei que tanto Powell como Farrakhan funcionavam como modelos para os 13% de americanos que se identificam como negros, umas vezes decididos a integrar-se de corpo e alma na sociedade majoritária (se os deixarem), outras tão revoltados com um passado de opressão que se deixam tentar pela ideia de um contra o outro, uma guetização voluntária que noutras eras chegou a passar por uma utópica pátria em África (a Libéria e projetos afins) ou por um também utópico território separado no Sul dos Estados Unidos.

Powell acabou por desistir. Hoje sabe-se que a mulher ameaçou deixá-lo. Alma cresceu no Alabama, território do Ku Klux Klan, e temia que um racista branco tentasse matar o marido como James Earl Ray assassinou Luther King. Filho de imigrantes jamaicanos nascido em Nova Iorque, o general Powell tinha razões para acreditar no sonho americano, mas cedeu a Alma.

Voltei a fazer reportagem no Sul dos Estados Unidos em 2004. E, em Austin, vi democratas texanos tristes com a derrota de John Kerry perante Bush filho celebrarem como consolação a eleição de Barack Obama para senador. Não adivinhei que estava ali o futuro presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro. Mas que fantástico foi Michelle, ela também descendente de escravos, não ter tido medo do sonho do marido, esse inspirador filho de uma branca do Kansas e de um imigrante queniano. Tenho curiosidade em saber como o museu no Lorraine Motel conta a vitória de Obama em novembro de 2008.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.