Impeachment a Trump: quem não tem Rússia caça com Ucrânia 

Nunca um presidente americano foi destituído e custa imaginar que a pouco mais de um ano das eleições a maioria republicana no Senado abandone de tal forma Donald Trump que seja possível o voto de dois terços que leve à sua queda.

Ou seja, tal como Andrew Johnson no século XIX ou Bill Clinton há duas décadas, Trump deverá sobreviver ao processo de impeachment. Richard Nixon, esse, demitiu-se em 1974 da presidência antes de ser julgado pelos senadores (que num raro caso de unidade entre republicanos e democratas estavam decididos a puni-lo pelo Watergate).

O anúncio do processo de impeachment foi feito pela democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes. Durante muito tempo, ela própria hesitou na oportunidade de atacar assim Trump, mesmo quando muitos no seu partido diziam que era óbvia a associação entre o presidente e a Rússia para ser eleito em 2016. Crime que poderia ser de traição.

Agora, Pelosi e outros democratas hesitantes decidiram agir por causa de supostas pressões de Trump sobre o presidente ucraniano para investigar o filho de Joe Biden, candidato à nomeação democrata para as presidenciais de 2020. O próprio Biden, que foi vice de Barack Obama, declarou que Trump estava a ignorar todas as linhas vermelhas.

Desta vez Trump poderá ser acusado de ameaça à segurança nacional e à integridade das eleições, com os democratas a associarem a sua conversa telefónica com Volodymyr Zelensky a decisões sobre apoio militar. O processo de impeachment avançará se receber o apoio de uma maioria de 50% mais um na Câmara dos Representantes, o que é possível por esta ser controlada pelos democratas, embora algumas dezenas deles tenham ainda de ser convencidos de que é boa ideia esta iniciativa contra o presidente.

Mas o grande entrave ao sucesso da iniciativa de Pelosi é mesmo o Senado. E se é improvável que haja suficientes republicanos que cheguem a virar costas a Trump (o partido acomodou-se ao magnata e nem nas primárias este é seriamente questionado), é dado como certo que a divisão na classe política americana assumirá uma visibilidade e uma animosidade tremendas.

As sondagens dão Trump a ser derrotado por vários candidatos democratas, incluindo Biden. Também se sabe que as sondagens de 2016 previam a vitória de Hillary Clinton e esta perdeu, mesmo ganhando no voto popular (como todos os democratas desde 1992, exceto John Kerry contra Bush filho em 2004).

Contudo, enquanto a economia se comportar bem, Trump pode ambicionar inverter as previsões e beneficiar da luta interna entre a vintena de rivais democratas concorrentes às primárias das presidenciais. E ser alvo de um impeachment de recurso - dá ideia de que quem não tem Rússia caça com Ucrânia -, fazendo a campanha girar em torno desta polémica, só ajudará à sua estratégia de vitimização destinada a garantir um bloco sólido de apoios que o reconduza na Casa Branca.

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