Guerra de Trump contra Sun Tzu dura há 397 dias

Na estante da casa pequinense de Xi Jinping há de certeza uma luxuosa edição de A Arte da Guerra. Que o líder chinês costuma consultar, basta ver agora a decisão de desvalorizar o yuan, a ponto deste ter ultrapassado a fasquia dos sete por dólar. Bem podem os Estados Unidos acusar a China de manipular a divisa, mas é uma das muitas reações possíveis ao anúncio por Donald Trump de que iria promover a 1 de setembro um aumento de 10% nas tarifas aplicadas a produtos chineses no valor de 300 mil milhões de dólares. Onde é que o estrategista que viveu há 2500 anos entra nesta guerra comercial? Na decisão de Xi de não taxar produtos americanos em retaliação: "A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar", escreveu Sun Tzu, num manual que sobrevive à passagem dos séculos e tem traduções em várias línguas, português incluindo.

Há boas razões para a China não imitar a decisão de Trump: as importações chinesas de produtos americanos é bem menor do que a exportação de produtos chineses para a América (uma das razões da fúria de Trump), e por isso seria pouco eficaz. Já esta desvalorização da moeda permite em teoria que computadores, telemóveis ou têxteis chineses continuem a ser vendidos a preços competitivos em Washington, Nova Iorque ou Los Angeles. Porém, a retaliação mais sínica (sim, de chinesa) é o cancelamento de compras de produtos agrícolas americanos, sabendo, por exemplo, que entre os grandes estados produtores de soja está o Iowa (onde Xi, há três décadas, esteve em visita prolongada) e o Ohio, que podem decidir a reeleição do presidente americano em novembro do próximo ano.

O ego exacerbado de Trump é bem conhecido mas o presidente americano faz mal se para lidar com Sun Tzu recorrer ao seu A Arte de Negociar, escrito quando era empresário. É uma luta desigual, tão desigual que permite a quem segue os ensinamentos do general chinês (e até Mao Tsé-tung o fez) ambicionar inverter guerras desiguais, como a que os Estados Unidos, com o seu PIB de 20,5 biliões (sim, os trillions anglo-saxónicos) fazem à China, com o seu PIB de 13,4 biliões (segunda economia mundial, mas com desvantagens grandes ainda, como a preponderância do dólar nos mercados).

Diz o China Briefing, site que acompanha esta guerra comercial iniciada por Trump, que já se vai em 397 dias de combates, com algumas tréguas pelo meio, geralmente em cimeiras onde Trump e Xi participam, como a do G20. A declaração de guerra foi a 1 de julho de 2018, quando os Estados Unidos anunciaram tarifas de 25% em produtos chineses no valor de 28 mil milhões de dólares. Um anúncio lógico tendo em conta a linha protecionista anunciada por Trump ainda na campanha eleitoral e também o crescente défice comercial sino-americano, que até cresceu nos dois primeiros anos de mandato do presidente republicano: no ano passado, foi de 420 mil milhões de dólares. Este ano, segundo os dados oficiais americanos para o primeiro semestre, deverá ser um pouco inferior (167 mil milhões até junho).

Escreveu Sun Tzu que "um soberano jamais deve colocar em ação um exército motivado pela raiva; um líder jamais deve iniciar uma guerra motivado pela ira". Trump tem de pensar bem nisto e ser menos emocional. Percebe-se que a ascensão chinesa, tanto económica como militar, assim como o ignorar de algumas regras da globalização, preocupe os Estados Unidos e que estes tentem contrariar os líderes de Pequim enquanto têm clara vantagem (daí, também, a pressão à Huawei e agora o rasgar ao tratado INF com a Rússia porque os mísseis chineses estão de fora) mas arriscam-se a ter uma vitória pírrica. E todo o mundo sofrer com isso.

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