Entre Trump e Cruz, o diabo que escolha

Primeiro o preferido era Jeb Bush, depois passou a ser Marco Rubio, agora é Ted Cruz. Já se percebeu que para a elite que controla o Partido Republicano a frase batida do "Qualquer um menos Trump" converteu-se em estratégia semioficial à medida que o magnata ia ganhando primárias sobre primárias, as últimas cinco na terça-feira, 26. Mas se a desistência em fevereiro de Chris Christie, governador de New Jersey, a favor de Donald Trump já tinha deixado um sinal de que a ala moderada dos republicanos desconfiava do beatífico Cruz, agora foi John Boehner, antigo presidente da Câmara dos Representantes, a denunciar o senador do Texas como sendo "Lúcifer" ou "o Diabo em carne e osso". Boehner, não tão liberal como Christie mas longe do ultraconservadorismo de Cruz, declarou que votará em Trump se este for a aposta do partido para 8 de novembro, mas que jamais ajudará o rival a chegar à Casa Branca se este sair como candidato da convenção agendada para julho em Cleveland.

Que Cruz seja visto como tragável pelo Partido Republicano é culpa inteira de Trump. O magnata, nova-iorquino conhecido pelas aparições televisivas e em tempos até democrata, decidiu fazer uma campanha sem papas na língua, ofendendo os mexicanos, atacando os muçulmanos, ridicularizando as mulheres, e se foi ganhando votos assim ao mesmo tempo tornou-se a vergonha do Partido Republicano e mesmo um embaraço para os Estados Unidos. Mas por trás da retórica efusiva, e sobretudo olhando para o seu passado, Trump surge como mais liberal do que Cruz, cujas posições tradicionais o aproximam do reacionarismo. Ora, terá sido isso que explica o apoio de Christie a Trump e agora as terríveis acusações de Boehner a Cruz ao mesmo tempo que deixava sair palavras simpáticas para o magnata.

A imprensa americana não hesitou em datar de 2013 as razões de queixa de Boehner contra Cruz. Entusiasmados por um bom desempenho nas eleições para o Congresso, o bloco mais reacionário dos republicanos decidiu forçar Barack Obama a ceder na lei da saúde, com Cruz na cruzada. Sabendo que era impossível o presidente americano ceder à chantagem, Boehner e outras figuras republicanas procuraram impedir a paralisação total do aparelho de Estado, mas sem sucesso. Desiludido, Boehner acabaria por retirar-se.

O curioso é que Cruz diz que pouco ou nada falou na vida com o antigo presidente da Câmara dos Representantes, um homem que o classifica como "um dos piores sacanas que conheci". E este desvalorizar das críticas, sobretudo da substância para serem feitas, é a opção da candidatura de Cruz para chegar à próxima terça-feira, dia de primárias no Indiana, a pensar só em derrotar Trump. Em teste estará também o acordo entre Cruz e John Kasich, o outro republicano na corrida, para unirem esforços contra Trump. Kasich, governador do Ohio, tem sido perseverante, insiste em continuar em campo mesmo sendo um distante terceiro e acredita que talvez na convenção tenha uma oportunidade se Trump chegar sem uma maioria definitiva.

Nas sondagens a nível nacional para 8 de novembro, Trump perde para Hillary Clinton, favorita democrata, e para Bernie Sanders. Mas Cruz também é esmagado pelos dois democratas. A única hipótese dos republicanos seria, adivinhe-se, Kasich, um raro republicano centrista, muito elogiado pelo que tem feito no Ohio (onde ganhou as primárias). Assim, o campo republicano surge confrontado entre o magnata desbocado e o senador esfíngico, enquanto ignora o único homem que poderia não só ganhar a Casa Branca como renovar o partido. Que até os célebres irmãos Koch recusem financiar Trump ou Cruz diz muito da qualidade destes dois candidatos. Pobre Partido Republicano.

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