Este rei até um republicano português deve admirar

Cruzei-me por breves momentos com Juan Carlos em El Salvador em 2008. O espanhol era a estrela da cimeira ibero-americana, uma estrela agora solitária porque Fidel Castro estava doente e deixara de assistir. Para mim, era sobretudo o homem que preferira décadas antes arriscar ser o monarca de uma Espanha democrática em vez de assumir os poderes ditatoriais que lhe tinham sido legados por Francisco Franco.

Hoje, Juan Carlos, de 81 anos, afasta-se de todas as cerimónias oficiais. É certo que já era apenas o rei emérito, desde que em 2014 abdicou para Filipe VI, mas a nova decisão encerra um capítulo da história de Espanha que, muito graças a ele, é feliz. E se os pequenos escândalos da velhice, como as caçadas a elefantes, lhe fizeram perder a popularidade, nunca os espanhóis deixaram de lhe reconhecer ser um dos pais da democracia. Sim, porque Juan Carlos foi capaz de devolver a monarquia a Espanha, mas também ajudou a que Espanha fosse a moderna democracia que hoje é. Não admira que inúmeros republicanos se tenham transformado em juancarlistas e que, fora de Espanha, houvesse republicanos a invejar o país que tinha um rei assim.

Foi escrita por José Luís Vilallonga, o marquês vermelho, a primeira biografia que li de Juan Carlos. Era um relato autorizado, simpático, onde se contava como o futuro rei nasceu em Roma porque lá estava exilada a família real desde o derrube de Afonso XIII. Também fala dos anos em Cascais, onde o pai, Juan, conde de Barcelona, decidira viver. E do estratagema de Franco, vencedor da Guerra Civil de 1936-1939, para fazer de Juan Carlos o seu herdeiro, prometendo o regresso da monarquia, mas não dando a coroa ao conde de Barcelona. Claro, o livro aborda a morte do ditador em 1975 e como Juan Carlos, rei enfim, escolheu encabeçar a transição democrática que culminou na Constituição de 1978. Mas o que mais me marcou no texto de Vilallonga foi a descrição da noite de 23 de fevereiro de 1981, a do célebre golpe do 23-F feito por saudosistas do caudilho, e como Juan Carlos saiu em defesa da jovem democracia espanhola.

Foi através da TVE, chamada ao palácio real, que Juan Carlos ordenou aos militares que voltassem ao quartel. Ao seu lado, com 13 anos, estava o príncipe das Astúrias. O pai queria que aprendesse a ser rei e ali estava uma bela lição prática para o hoje monarca.

Filipe VI tem um grande desafio pela frente: fazer da monarquia espanhola uma instituição que não dependa de figuras, mesmo que seja a do seu pai. Se o conseguir será a confirmação de que também a democracia espanhola, no formato decidido em 1978, já não depende de nomes como Adolfo Suárez (já desaparecido), Felipe González ou Juan Carlos de Borbón y Bórbon.

São tempos complexos em Espanha, com a persistência do independentismo em certos meios catalães e o aparecimento de um partido com explícitas referências ao franquismo. Juan Carlos terá ensinado o que sabia e podia ao filho, um rei do século XXI que prepara agora por sua vez a filha Leonor para um dia reinar também, assim o queiram os espanhóis.

Sobre o rei emérito o que se pode dizer, além do carinho que sempre teve por Portugal, é que a Espanha é hoje muito melhor do que há meio século e isso tem muito de mérito seu. E que o vizinho, esse Portugal onde vinha passar férias com os pais, também ganhou muito em depois de fazer a sua revolução ter tido ao lado uma Espanha determinada igualmente a ser uma democracia. Não por acaso, a República Portuguesa e o Reino de Espanha foram aceites ao mesmo tempo na CEE, como se chamava então a União Europeia.

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