Dicas para poupar, segundo o sr. IKEA

Para a Bloomberg, Ingvar Kamprad é o quinto mais rico do mundo, mas na lista da Forbes o sueco não vai além do 412.º lugar. Mais um mistério em torno do homem que em 1943 fundou a IKEA e agora anuncia o regresso à terra natal após quatro décadas de exílio fiscal na Suíça. A firma famosa pelo mobiliário pronto a montar passa a ser controlada por Mathias, um dos filhos.

Diz o magnata de 87 anos que volta à pátria porque quer estar perto da família, pois desde a morte da mulher pouco o liga à Suíça. Acrescenta o Wall Street Journal que a facilitar a decisão estará o fim da taxa sobre riqueza na Suécia e a redução do imposto sobre o rendimento, o que faz da nação nórdica um país bem diferente daquele que Kamprad abandonou em 1973. Também na época, a IKEA era já grande, mas não o colosso de hoje, com 300 lojas mundo fora.

Que sempre fez questão de poupar (não só nos impostos) é o mínimo que se pode dizer deste sueco que em plena Segunda Guerra Mundial se lançou nos negócios. Seja a sua fortuna de 52 mil milhões de dólares ou de três mil milhões, sabe-se que preza a austeridade, a ponto de viajar de avião em económica, nunca ficar em hotéis de luxo e até reutilizar as saquetas de chá. Conta a Forbes que conduz um Volvo com mais de 20 anos e que só se lhe conhece como extravagância uma herdade em França.

Porque lhe minimiza tanto a fortuna a Forbes? A culpa é do próprio dono da IKEA. Conseguiu que os advogados provassem em 2011 que a maioria dos fundos da empresa não estavam sob seu controlo. A revista americana aceitou os argumentos e remeteu Kamprad para o meio da lista, quando antes andava no topo, junto de Slim e de Gates.

Curioso o pedido de revisão em baixa do sueco, nesta era de vaidades, em que um príncipe saudita pôs a Forbes em tribunal por o considerar menos rico do que aquilo que diz ser.

Ora, a polémica sobre o dinheiro de Kamprad só existe porque o mundo das finanças tende a ser opaco. Em vez de uma IKEA, há várias, incluindo a fundação baseada na Holanda. Saber quem é dono do quê torna-se um quebra-cabeças, para a Forbes como para quem cobra impostos.

Kamprad merece aplauso pela democratização do acesso ao design, mesmo que o seu objetivo, como capitalista, seja multiplicar lucros. Sobre o estatuto de exilado fiscal, não é a ele que se deve pedir contas, mas sim aos governantes que o permitem, sem problemas de consciência.

Dos britânicos Rolling Stones nos anos 70 ao francês Depardieu agora, mudar de país para fugir aos impostos é privilégio de rico, por muito que as taxas oprimam. À maioria dos trabalhadores a hipótese não se põe. Aos Estados compete apressar um acordo que minimize a injustiça de os magnatas poderem ser apátridas enquanto os outros financiam os seus países. Entretanto, a boa velha Suécia está de portas abertas para o regresso do poupadinho sr. IKEA.

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