Com ceviche e quinoa se conquista Portugal

Falava de orgias, tabloides e crimes de Estado na era Fujimori o último livro que li de Mario Vargas Llosa, mas aquilo que me ficou mesmo desse romance do Nobel peruano foi a conversa sempre que dois amigos se encontravam, qualquer coisa do género "tenho uma corvina fresca lá em casa. Queres partilhar comigo um ceviche?". Recomendo esse Cinco Esquinas, que vai buscar o nome a um bairro popular de Lima. Como recomendo também, e cada vez mais, a gastronomia peruana, que é muito mais do que o delicioso ceviche estrela no livro de Vargas Llosa.

Talvez tenha sido há dois anos que fui pela primeira vez a um restaurante peruano, e bem aconselhado escolhi o Qosqo, na Baixa lisboeta, o pioneiro em Portugal e propriedade de peruanos. Desde então tenho juntado curiosidade e apetite para ir conhecendo mais.

Em agosto, num artigo publicado aqui no DN, a embaixadora Maritza Puertas de Rodríguez, recém-chegada e com desejo de dar a conhecer o seu país, lembrava que além de ter sido "berço de uma das grandes civilizações da humanidade" o Peru tem grande diversidade de climas (da floresta tropical às neves eternas dos Andes) e também de gente (dos descendentes dos incas aos imigrantes japoneses e chineses, passando pelos bisnetos dos espanhóis e dos seus escravos africanos) e que isso se refletia na gastronomia.

Ora, na segunda-feira, num show cooking para jornalistas, no Incanto, em Cascais, o chef Camilo Quiñones (na foto) falava dessa excelência dos produtos do Peru, do peixe das águas frias do Pacífico até à quinoa ou o maíz chullpi, enquanto ia exibindo as suas artes de múltipla inspiração étnica: ceviche, tiradito de pescado, tequeños de lomo saltado, etc. Achei curioso um prato chamado causa de pulpo, uma referência à causa da independência, a luta que, conduzida pelo general argentino San Martín, levou ao fim do colonialismo espanhol em 1821 (mesmo que a última batalha, em Aya-cucho, date de 1824 e ainda em 1864, ano de fundação do DN, a armada espanhola faça um bombardeamento do porto de Callao). No fundo, o causa é uma espécie de batata em puré enrolada à volta de algum tipo de proteína animal, no nosso caso o polvo. E causa porque era o prato para os soldados feito com as contribuições do povo para a tal causa nacional.

Com uma irmã casada com um português, e sobrinhos luso-peruanos já adultos, Quiñones escolheu viver cá e trabalhou no grupo Pestana antes de em abril abrir o seu restaurante. O Incanto é um dos seis com chefs peruanos na zona de Lisboa, sendo ao todo 16 os restaurantes ditos peruanos que existem em Portugal, segundo uma preciosa lista que a embaixada me fez chegar. Daqueles em Lisboa que não têm chef peruano conheço o Segundo Muelle, franchisado de uma cadeia de Lima, e não tenho razão de queixa. O seu pisco sour, um cocktail peruano, vale a pena.

Nos últimos anos o Peru tem-se comportado bem do ponto de vista económico. O PIB cresceu em média 5,2% entre 2001 e 2016. O turismo, claro, dá uma bela ajuda, mas há quem diga que a gastronomia se tornou uma atração tão grande como Machu Picchu. Se for assim, é agora com ceviche e quinoa que os peruanos estão a conquistar a simpatia do mundo pelo estômago. E os portugueses não são exceção.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG