As areias do Sara mexem e no sentido favorável a Marrocos

Para Marrocos, a abertura na quarta-feira de um consulado dos Emirados Árabes Unidos em Layounne, a capital do Sara Ocidental (províncias do sul, preferem dizer os marroquinos) é duplamente uma importante vitória diplomática. Primeiro que tudo porque depois de uma dúzia de Estados africanos terem nos últimos tempos aberto consulados em Layounne e Dakhla, outra cidade da antiga colónia espanhola, este nova representação diplomática será a primeira de um grande país árabe, depois do Dibuti e das Comores. Em segundo lugar, porque a data escolhida coincide com a semana em que é celebrada a Marcha Verde de 1975, nome dado à entrada de milhares de marroquinos no território, incentivados por Hassan II, sabendo o rei da vontade espanhola de retirar tropas e funcionários dado o cenário de grande incerteza política em Madrid, com Francisco Franco então moribundo (o generalíssimo acabaria por morrer a 20 de novembro daquele 1975).

Se a aproximação de Marrocos com África, que se concretiza a passos largos depois da readmissão em 2016 na União Africana após longa ausência, já desagradava à Frente Poiisario e e ao seu patrono, a Argélia, esta decisão anunciada por Mohammed VI depois de uma conversa telefónica com o príncipe herdeiro emirati levanta ainda mais problemas, pois pode indiciar uma tendência entre os países árabes. Há dois anos a Liga Árabe tinha vindo já em apoio de Marrocos condenando as eventuais ligações entre o Hezbollah libanês e a Polisario, projeto de aliança de conveniência que teria o visto bom do Irão.

Com um território de 266 mil km2 e pouco mais de meio milhão de habitantes, o antigo Sara Espanhol, também conhecido como Saguía el Hamra e Río de Oro, tem uma história atribulada nestes 35 anos desde a Marcha Verde. Durante década e meia a Polisario combateu contra Marrocos e a Mauritânia até um cessar-fogo ser assinado em 1991 com mediação da ONU. Entretanto os mauritanos tinham desistido da sua reivindicação sobre o terço sul e os marroquinos assumiram o controlo de quase todo o território com exceção de uma estreita faixa ao longo de um muro de segurança que se estende de norte para sul e depois de este para oeste. Os combatentes da Polisario e as populações sarauis que se refugiaram na Argélia por recusa da soberania marroquina vivem sobretudo na região de Tinduf, sendo atualmente cerca de cem mil pessoas.

Ao cessar-fogo seguiu-se uma missão da ONU encarregada tanto de garantir a paz como de organizar um referendo de autodeterminação, mas a impossibilidade dos dois lados concordarem com as populações a serem abrangidas por um recenseamento eleitoral trouxe o impasse. Sucedendo ao pai no trono, Mohammed VI decidiu avançar com uma proposta de vasta autonomia, proclamando ao mesmo tempo que nunca cederia um grão de areia que fosse do território marroquino, 710 mil km2 se incluirmos as tais províncias do sul, fronteiriças da Mauritânia e portanto permitindo acesso direto do reino ao continente africano (a fronteira com a Argélia, essa, continua fechada, simbolizado a rivalidade entre os dois grandes países do Magrebe). Em termos geopolíticos também, um Sara Ocidental independente, seu aliado, significaria para a Argélia, país mediterrânico, uma porta para o Atlântico.

O mandato da Minurso foi renovado em um ano, a 30 de outubro, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. As principais potências voltaram a mostrar as suas simpatias, com Estados Unidos e França a mostrarem forte inclinação para aceitar a proposta de autonomia marroquina como a solução pragmática para o conflito, enquanto a Rússia, com laços tradicionais com a Argélia que vêm dos tempos soviéticos e envolvem venda de armas, insiste no respeito pelo texto das resoluções sobre o Sara, mantendo contudo um esforço de neutralidade que é coerente com o seu desejo de prosseguir as boas relações com Marrocos.

Para Mohammed VI, que este ano celebrou 21 anos no trono, garantir o reconhecimento internacional das províncias do sul faz parte de um esforço de reconstrução do reino iniciado em 1956, quando o seu avô Mohammed V se libertou do protetorado franco-espanhol que durava desde o início do século XX. Mas pode até inserir-se na tradição sariana da dinastia alauita, que governa Marrocos há quase 400 anos, e que não só refez a unidade do país como no século XVIII reconquistou a última cidade ainda em posse de Portugal (Mazagão, atual El Jadida) e até criou uma relação histórica única com os Estados Unidos ao ser o primeiro país a reconhecer a independência destes (o antigo consulado em Tânger lá está a testemunhar). Espanha, que perdeu o norte de Marrocos e Ifni além do Sara, mantém duas cidades no Norte de África, Ceuta e Melilla, que os marroquinos também não deixam de reivindicar como suas apesar de séculos de soberania espanhola e em 2002 a posse de uma ilhota desabitada no estreito de Gibraltar levou a um braço de ferro entre Rabat e Madrid, até com operações militares mas sem derramamento de sangue.

Para a Polisario a eternização do cessar-fogo e a ausência de passos para o referendo é desmoralizante ao ponto de haver quem defenda o regresso às armas. A República Árabe Saraui Democrática, proclamada em 1976, é reconhecida por mais de 85 países segundo os independentistas (meia centena dizem outras fontes, mas nenhum deles Estados membros da União Europeia.

Durante muito tempo, os dirigentes da Polisario pressionaram Portugal fazendo referência à situação de Timor-Leste, antiga colónia portuguesa ocupada pela Indonésia. É porém em Espanha, por razões históricas, que mais simpatia parece haver pelo separatismo saraui, com múltiplas associações a apoiarem a populaçãoy de Tinduf e a imprensa a dar eco regular a denúncias de violações dos direitos humanos no Sara, mas as autoridades de Madrid mantém distanciamento qb da Polisario, privilegiando as boas relações com Rabat, tanto por questões comerciais (Marrocos têm o quinto maior PIB de África) como de segurança, por causa das rotas de emigração no Estreito de Gibraltar.

Uma das minhas primeiras reportagens no estrangeiro incluiu o Sara Ocidental. E se ao longo dos anos entrevistei várias figuras marroquinas, em 1998 tive também a oportunidade de conversar com Mohammed Abdelaziz, líder histórico da Polisario, que morreu em 2016 (Brahim Ghali, de 71 anos, é o sucessor). Ao longo dos anos, o conflito tem recebido variáveis momentos de atenção, dependendo muitas vezes de quem é o enviado especial do secretário-geral da ONU. Nomes como James Baker, antigo chefe da Diplomacia dos Estados Unidos, ou Horst Köhler, antigo presidente da Alemanha, jogaram o seu prestígio na busca de uma saída e sem resultados. Hoje é evidente que só disposição das duas partes (três, dizem aqueles que consideram a opinião argelina decisiva) a serem originais no diálogo e na busca de soluções poderá acabar com este impasse geopolítico.

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