América e Rússia juntos na Líbia

Estranha guerra civil esta na Líbia que põe Reino Unido e França em lados opostos mas faz americanos e russos partilhar interesses. Mas estes países não são os únicos a intrometer-se no conflito entre o chamado Governo do Acordo Nacional (GNA, na sigla inglesa), baseado em Tripoli, e o Exército Nacional da Líbia (LNA), cuja fonte de apoio começou em Benghazi mas alastrou de tal forma que já assola a própria capital. Também Qatar e Turquia estão envolvidos, a apoiar o GNA, enquanto Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita estão de corpo e alma com o LNA.

Não admira que Abdusllam Kames, chefe da missão da Líbia em Portugal, apele ao retomar do processo negocial e em simultâneo à saída das potências que estão a interferir nos assuntos internos líbios. Não aponta o dedo a ninguém, mas considera a situação insustentável, tanto mais que um assalto final a Tripoli pelo LNA liderado pelo marechal Khalifa Hiftar pode trazer um banho de sangue, tudo dependendo da vontade de resistir das milícias ainda entrincheiradas na zona da capital.

Hiftar diz que muitas delas são grupos islamitas que aproveitaram a revolta há oito anos contra o regime de Muammar Kadhafi (bombardeado pela NATO), para se tornarem donas de negócios vários (do contrabando de petróleo ao tráfico humano) e influenciarem o governo. Os rivais dizem que o LNA é ele sim uma gigantesca milícia às ordens de um homem com um projeto pessoal de poder.

Se Fayez Al-Sarraj, o chefe do GNA, é uma figura com escassa base de poder, apesar de oriundo de uma família rica e filho de um ministro dos tempos da monarquia derrubada em 1969, já Hiftar goza de uma popularidade que vai buscar tanto ao seu passado (aliado de Kadhafi, depois inimigo forçado ao exílio) como ao seu currículo de unificador da Líbia e de exterminador de jihadistas, a começar pelo Daesh, que chegou a ter bastiões no país.

Antiga colónia italiana, a Líbia tem a vantagem de não enfrentar nem as divisões entre muçulmanos e cristãos nem entre sunitas e xiitas. Mas o sistema tribal sobreviveu à república quase socialista liderada por Kadhafi durante mais de 40 anos e facilita o jogo de interesses estrangeiros. Também as diferentes influências no tempo colonial, com italianos senhores da Tripolitânia, britânicos fortes na Cirenaica e presença francesa no Fezzan, se fazem hoje sentir, mesmo que em sentido contrário ao óbvio. A Itália está, por exemplo, a sentir-se tentada a trocar de lado no conflito, tendo aberto consulado em Benghazi.

As Nações Unidas, que reconhecem o GNA, têm um papel-chave para se construir um futuro pacífico e democrático na Líbia, afirma o ministro plenipotenciário Kames, cansado da cobiça das riquezas nacionais pelos vizinhos e das estratégias da potências.

Não se adivinha fácil o futuro dos governantes de Tripoli. Além da sua fraqueza no terreno, um telefone recente de Donald Trump a Hiftar (cidadão americano, pois foi na Virginia que se exilou em 1991) terá feito os Estados Unidos passar para o lado do LNA, onde estão os egípcios e os sauditas, protegidos da América, mas também os russos. Há quem diga que à América interessa que a Líbia estabilize para que o seu petróleo corra. Também que Hiftar é, no fundo, o mais eficaz travão aos jihadistas. E que com ele talvez seja possível travar a emigração das costas líbias para a Europa, grande preocupação de Itália. O problema é que Hiftar não quer democracia, quer o lugar que já foi de Kadhafi.

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