A culpa é de Obama, o anti-Bush?

Se o Médio Oriente está como está é culpa de George W. Bush, diz-se há muito na Europa. Também se começa a ouvir que se o Médio Oriente está como está a culpa é de Barack Obama, aquele que os europeus há um tempo celebraram como o anti-Bush. Ora o que a Europa está a fazer é a apontar o dedo aos Estados Unidos, no passado porque mexeu no vespeiro, na atualidade porque o evita, abandonando os aliados à mercê do jihadismo e da vaga de refugiados.

Se Obama age como age é porque aprendeu com os erros do antecessor, mas também porque se cansou de ver a América assumir responsabilidades no Norte de África e no Médio Oriente que os parceiros europeus, consoante o líder ou o interesse nacional, partilhavam numa lógica de q.b..

Para se perceber o que pensa Obama nada como o artigo que Jeffrey Goldberg assina na The Atlantic. Intitulado "Obama Doctrine", resulta de seis horas de conversas com o presidente. E põe a nu ideias como o aquecimento global ser uma ameaça existencial mais forte do que o Estado Islâmico, que o mundo é um sítio trágico e que nem sempre os valores da democracia podem ser impostos pelas armas e que seria irresponsável iniciar guerras (leia-se Síria) antes de resolver as herdadas de Bush (Afeganistão e Iraque).

A visão de Obama não é agradável para quem no espaço de meses assiste a um massacre em Paris e agora outro em Bruxelas, coração desta União Europeia que por razões de história é a aliada natural dos Estados Unidos. E é tentador, perante os milhões de refugiados que tentam entrar na Europa, catalogar os Estados Unidos de egoístas, pois o Médio Oriente fica-lhes distante. Mas seria um erro passar da acusação de Bush ter arrastado os europeus para o atoleiro para a de Obama os ter lá deixado sozinhos.

O líder americano, que enquanto senador se opôs ao ataque de 2003 a Saddam Hussein, até se esforçou por reconciliar Ocidente e Islão, com o célebre discurso no Cairo, em que relembrou as raízes muçulmanas. E a Primavera Árabe entusiasmou-o. Mas o ceticismo impôs-se a partir de 2011 e teve que ver com a Líbia. Obama acabou por alinhar com o presidente francês Nicolas Sarkozy e com o primeiro-ministro britânico David Cameron, para logo se arrepender. Na conversa com Goldberg, é duro com os políticos europeus, os free raiders (traduzível por "oportunistas").

Na Líbia, depois de Muammar Kadhafi veio o caos, foi aquilo que Obama constatou. Nem Sarkozy nem Cameron tinham alguma ideia para o pós-Kadhafi, o ditador que tinha desistido do terrorismo e cooperava para travar a imigração no Mediterrâneo. No fundo, erro tão básico como o de Bush quando se desfez de Saddam ajudando a Al-Qaeda.

E assim se chega a 30 de agosto de 2013 e a uma reunião na Treaty Room do Departamento de Estado, quando John Kerry, o chefe da Diplomacia, pede a Obama que bombardeie a Síria para punir Bashar al-Assad por ter usado armas químicas num subúrbio de Damasco, mas o presidente recusa. O ambiente foi de tensão, conta a The Atlantic. Como fatores decisivos para a não intervenção: as duas guerras de Bush por terminar e o precedente da Líbia. Curioso que Kerry tenha sido o campeão do intervencionismo, imitando a antecessora Hillary Clinton, que no caso do ataque a Kadhafi convencera Obama.

Sem a América como polícia no Médio Oriente tudo é possível, desde a afirmação de poder da Rússia à consolidação do Estado Islâmico. Mas os anos recentes mostraram também que a eficácia das ações de policiamento dos Estados Unidos era cada vez mais reduzida e, no fundo, a retirada americana (parcial, pois os aviões continuam a alvejar os jihadistas) favorece quando muito a Rússia, que nesta questão do combate ao terrorismo só pode ser vista como uma aliada na Europa.

Perante o jihadismo, importado do Médio Oriente ou nele inspirado, nenhum país está a salvo. Ainda em dezembro houve o tiroteio de San Bernardino, na Califórnia. E os Estados Unidos de Obama nunca deixarão de estar ao lado da Europa. Mas as presidenciais trazem incógnitas e se Hillary, que enquanto senadora apoiou Bush no Iraque, é a promessa do regresso ao intervencionismo, já Donald Trump acredita na fortaleza América, fechada a muçulmanos e indiferente ao Médio Oriente (e à Europa). E ontem, no Twitter, usava Bruxelas para reclamar ter razão.

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