A batalha entre América e Irão pelo Iraque começou em 2003 com Bush filho

Faz agora 17 anos, estava em Bagdad à espera da invasão americana do Iraque. Com os movimentos controlados ao pormenor - até o telefone satélite do DN estava obrigado 24 horas sobre 24 a ser hóspede do Ministério da Informação e pagando cem dólares por dia - aproveitei uma cerimónia no Monumento ao Soldado Desconhecido para ter acesso às principais figuras do regime iraquiano. Saddam não apareceu, mas uma limusina com o número dois do Partido Baas só parou quase em cima do disco enorme que junto com as espadas gigantes do Arco da Vitória era dos mais originais edifícios da capital do Iraque. Passagem em revista às tropas, cumprimentos de despedida aos poucos embaixadores que ainda não tinham partido (estávamos no início de janeiro de 2003, as bombas chegariam a 20 de março) e Al-Douri entra num carro, não aquele em que chegou, mas outro, o terceiro da fila, de linhas bem mais discretas. Poucos meses antes, no Iémen, um chefe local da Al-Qaeda tinha-se transformado na primeira figura eliminada por um drone dos Estados Unidos, tecnologia agora na moda, mas com as primeiras experiências de combate a datar da Segunda Guerra Mundial. Al-Douri saberia?

Durou pouco a resistência do exército de Saddam aos invasores americanos e britânicos enviados por Bush filho e Blair à revelia da ONU. E o general Al-Douri teve de esconder-se para não ser capturado como o próprio ditador, que acabou executado. No célebre baralho de cartas emitido pelos Estados Unidos para identificar as principais figuras baasistas foragidas, era o Ás de Paus, mas apesar de facilmente reconhecível pelo cabelo e bigode ruivos, o número dois de Saddam foi capaz de escapar até pelo menos 2015 tanto aos militares americanos, como ao novo exército iraquiano, saneado de fiéis do antigo regime, sobretudo de oficiais que pertencessem à minoria sunita. As últimas notícias sobre Al-Douri davam conta de ter morrido a combater ao lado do Daesh, aliado de circunstância para um nacionalista árabe obrigado a sobreviver num país agora, e pela primeira vez na sua história, dominado pela maioria xiita.

Não foi por desconhecimento da realidade religiosa e étnica do Iraque que os Estados Unidos falharam no pós-Saddam. Ignorando os académicos e aconselhado pelos neoconservadores que acreditavam numa democratização do Médio Oriente a golpes de bombas, Bush filho foi mais longe do que Bush pai, o presidente americano que em 1991 se limitara a expulsar as tropas de Saddam do Koweit, e acabou com o regime laico liderado por sunitas que antes fora muito útil para travar os ímpetos expansionistas da República Islâmica resultante da revolução iraniana de 1979. Pura cegueira ideológica. Nascido da junção de três antigas províncias do Império Otomano, Mossul a Norte dominada pelos curdos, Bagdad ao centro controlada pelos árabes sunitas e Baçorá no Sul, bastião xiita, o Iraque assim que viu o poder ser definido pela ideia de um homem um voto deixou-se cair nas mãos dos políticos xiitas, muitos deles é certo recém-chegados do exílio na América mas nem por isso menos dependentes de uma base que de uma forma ou outra simpatizava com os iranianos, com o fator religioso a mostrar-se mais forte do que a rivalidade entre árabes e persas.

O ataque com um drone que matou há dias um general iraniano em Bagdad tem que ser entendido assim no contexto de uma luta pelo controlo do Iraque que opõe Washington a Teerão desde 2003, com os governantes de Bagdad a tentarem um equilíbrio quase impossível entre os dois países inimigos, cada qual com as suas clientelas no país (os curdos, por exemplo, claramente são protegidos pela América). E depois da emergência do Daesh, que vindo da Síria chegou após 2014 a controlar vasto território iraquiano e até mesmo uma metrópole como Mossul, Bagdad teve de recorrer, dada a fraqueza das suas forças armadas, tanto a tropas americanas como a milícias armadas pelos iranianos, com voluntários xiitas de vários países.

O ataque a um quartel americano e sobretudo o cerco à embaixada americana em Bagdad por uma milícia xiita já em dezembro veio mostrar que com os jihadistas do Daesh derrotados, o Iraque finalmente vai tornar-se o principal ponto de disputa entre os Estados Unidos e o Irão, por muito que Trump ou o ayatollah Ali Khamenei prometam fazer dano um ao outro em múltiplos cenários do Médio Oriente mas não só. E o momento parece ser de vantagem para o lado iraniano, que celebra a vitória de Assad na Síria, a manutenção da influência do Hezbollah no Líbano ou a resiliência dos houthis no Iémen, capazes de resistir à intervenção saudita e até atacar o reino, ocasionalmente, com os seus mísseis. O parlamento iraquiano, reagindo ao ataque ordenado por Trump contra o general Soleimani, votou a retirada imediata dos cinco mil soldados americanos no país, e por extensão dos militares dos restantes países que vieram em socorro do país contra o Daesh, da Alemanha à Austrália. Quem se recusou, porém, a votar a exigência de saída dos americanos (que formalmente, e isso é chave, já não são as tropas invasoras de 2003, mas os aliados solicitados em 2014) foram os deputados sunitas e curdos.

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