Leonídio Paulo Ferreira

Uma estratégia comum para os povos de língua portuguesa

Quando me convidaram para tomar a palavra neste encontro partidário (Convenção Nacional do PSD), não hesitei. O tema que sugeri respeita a todos nós, independentemente do posicionamento e eventual filiação partidária. Acresce que sou secretário-geral de uma instituição, a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e é nesta qualidade que intervenho, tendo escolhido o tema "Para uma estratégia do desígnio comum dos povos e países de língua oficial portuguesa".

Vítor Ramalho

As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

PremiumNos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

Catarina Carvalho

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

PremiumA discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.

Adolfo Mesquita Nunes

O calote de 38 milhões de euros

Premium A ADSE é o maior subsistema complementar de saúde em Portugal e, com esse peso, tem negociado com os privados tabelas de pagamento de serviços. Há já alguns anos que a ADSE é totalmente paga pelos trabalhadores, os mesmos que através dos seus descontos também financiam o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em 2015 e 2016, os grupos privados decidiram não cumprir as tabelas negociadas e cobraram mais 38 milhões de euros em relação ao negociado e a ADSE exigiu que os prestadores convencionados regularizassem os pagamentos. O caso avançou a ponto de a ADSE pedir um parecer à Procuradoria-Geral da República, que lhe deu razão. Em circunstâncias normais, os privados pagariam o calote e não se falava mais do assunto, sendo certo que o assunto era já grave o suficiente para que dele se falasse. Mas não foi isso que aconteceu, os privados uniram-se em cartel para ameaçar a ADSE, suspender os acordos vigentes e tentar convencer a opinião pública de que têm o direito de impor a tabela de preços que bem entendem fugindo aos compromissos negociados previamente. Grupo Mello e CUF, à cabeça, lançaram-se nesta missiva para que, mais uma vez, prevaleça o negócio à frente da saúde.

Marisa Matias

Traduzir a democracia em realidade

PremiumAo passarmos os olhos pela história recente da democracia como regime e sistema político, percebemos que um dos seus grandes desafios tem sido concretizar os valores que a norteiam. Se genericamente a democracia lutou, numa primeira fase, pela implantação dos valores da igualdade, liberdade e solidariedade, posteriormente, viu-se (e vê-se!) confrontada com a necessidade absoluta de traduzir a teoria dos princípios democráticos na sua prática política. A estabilidade da democracia enquanto garante da justiça social e até enquanto sistema depende da capacidade de garantirmos a filiação da prática política aos valores democráticos.

Maria Antónia de Almeida Santos

A revolução adiada de Henry Ford

Premium As investigações à CGD e os diferentes comentários sobre o que se vai sabendo evocam uma célebre frase atribuída a Henry Ford (1863-1947), e que todos os professores de Economia gostam de citar quando iniciam os seus estudantes nos segredos do sistema bancário: "Ainda bem que o povo da nossa nação não percebe como funciona o nosso sistema bancário e monetário, porque se compreendesse, acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã." A ideia febril de que as cumplicidades e compadrios cometidos no banco do Estado, durante o auge do domínio da tribo liderada por Salgado e por Sócrates, levariam logicamente à necessidade de privatizar o último moicano da banca pública nacional revela que Ford tem razão. A ignorância do povo e dos seus representantes (aqui, uma ignorância às vezes muito convenientemente cultivada) continua a ser o melhor castelo onde se abrigam os poderosos do mundo, com os seus modelos de governação e influência (i)legais, mas altamente efetivos.

Viriato Soromenho-Marques

Morrer em directo

PremiumPara os meus irmãos não voltarem à carga com a história de terem um cão - o que numa casa alcatifada, como eram quase todas no final dos anos sessenta, estava fora de questão -, a minha mãe tentou arrumar o assunto (pelo menos, temporariamente) comprando-nos três peixinhos de aquário, dos quais, por acaso, me calhou o mais feio. Era um espécime amarelo que alguém classificou como golden para me consolar, mas cuja falta de graça tentei compensar com um nome suficientemente snob: Mr. Pickwick.

Maria do Rosário Pedreira

Sopa de Mel

PremiumOs programas de culinária fazem parte há tanto tempo da paisagem televisiva que é difícil recordar quão contra-intuitivo é o conceito. Enquanto a esmagadora maioria das actividades competitivas transmitidas no pequeno ecrã nos fornecem a possibilidade de avaliar os méritos dos participantes segundo os mesmos critérios que os juízes, e gritar no conforto do sofá que a voz "desafinou" ou que "não era penálti", os programas de culinária mostram-nos uma actividade avaliada pelos três sentidos que a televisão não alcança. Qual a reacção instintiva perante afirmações tão peremptórias como "a bolacha está dura", "o peixe tem pouco sal" ou "o caldo precisava de mais sabor"? A reacção instintiva é renunciar à reacção instintiva e adoptar a reacção educada: educada pela experiência prévia de ver televisão.

Rogério Casanova

Opinião. Paes Mamede: Para que servem os rankings escolares?

Todos os anos as escolas portuguesas são ordenadas pelas classificações médias dos alunos nos exames nacionais. Do ponto de vista técnico, estes rankings são uma fraude. Em termos práticos, produzem efeitos contraproducentes. Não é o seu rigor nem as suas implicações que explicam o destaque que os media lhes dão. Os rankings são visíveis porque são polémicos e uma polémica acesa é sempre motivo de notícia. Mas, além de atraírem audiências, para que servem?

Riacardo Paes Mamede

E sexo no espaço, é possível? Essa é que é a questão

Indo diretamente para a resposta, sem grandes preliminares: a NASA diz que sim. Ou melhor, depende. Tecnicamente falando é possível ter relações sexuais em ambiente de gravidade zero. Essa é a boa notícia para quem pensa que ainda poderá colonizar Marte, fazer turismo espacial romântico ou trabalhar (e divertir-se) num vaivém. A má notícia é que apenas quatro posições parecem ser práticas para o coito galáctico.

Paulo Farinha

A Mistura Lisboeta

Quando me mudei para Lisboa, há três anos, acabei indo morar no mesmo bairro onde tinha vivido em 2005. Santa Catarina estava mais cheia, mais chuvosa, mais barulhenta. Para voltar do trabalho sem esbarrar em ninguém, inventava atalhos para evitar as calçadas atravancadas que desembocavam no Elevador da Bica. Demorei duas semanas para conseguir pegar o lotadíssimo 28, na mesma tarde em que parou de chover e se rasgou uma nesga de céu azul. Só então me senti em casa.

Carlos Kessel